Eastern Promises (***)

Se olharmos para a filmografia de David Cronenberg, encontramos objectos cinematográficos muito marcantes das três últimas décadas. De Videodrome, em 1983, a A History of Violence, de 2005, passando por The Fly, Naked Lunch, Crash ou eXistenZ, estamos perante um dos realizadores mais criativos do cinema contemporâneo do lado de lá do Atlântico. Temas: muitos, da ligação homem-máquina, à realidade-não realidade, até à violência. E olhando para tudo isto, e para Eastern Promises, é claro que este é um filme menor. Não que seja um filme mau, atenção. Aliás, não se conhece a Cronenberg, para já, tal conceito. Porém, o último trabalho do norte-americano está uns furos bem abaixo até dos dois filmes anteriores que deixaram marcas mais invisíveis do que os que lhe deram nome (ainda que A History of Violence seja brilhante). Sinopse: "Perturbada pela morte de uma jovem que ajudou durante o parto, Anna (Naomi Watts) tenta encontrar a família do recém-nascido a partir do diário da mãe, escrito em russo, único meio para tentar identificá-la e perceber o que lhe aconteceu. Antes de começar a traduzir as páginas, Anna encontra Semyon, proprietário do luxuoso restaurante Trans-Siberian, que promete ajudá-la. Mas Semyon é na verdade o líder de um "gang" russo e quando percebe que o caderno o pode incriminar tenta a todo o custo arrancá-lo a Anna. À medida que revelações explosivas são feitas, e o tio de Anna vai traduzindo o diário, o número de vidas em risco aumenta..." (Cinecartaz Público). Posto isto, parece óbvia a tecla violência como temática de novo eleita pelo realizador. Depois da fase real/não real/irreal, cumprida sobretudo com eXistenZ e Naked Lunch, Cronenberg procura a violência frontal, sem contemplações. A primeira cena de Eastern Promises, aliás, revela-o de forma bem explícita, numa garganta cortada realisticamente, sem a limpeza comum de Hollywood. Mas, e aqui a surpresa, a chama extingue-se ao longo do filme, e o que podia ser um golpe de asa perde-se rapidamente. O argumento é sólido, mas demasiado previsível, e, enorme pormenor, toda a estrutura assenta na performance de Viggo Mortensen, novo actor-fetiche. Sim, o desempenho de Mortensen terá muito possivelmente o Óscar garantido, mas leva o filme às costas, e isso não é comum. Se em A History of Violence o cinema no filme era assegurado por um equilíbrio entre realização, representação e argumento, em Eastern Promisses Cronenberg anula-se perante a presença esmagadora de Mortensen, que canibaliza, assim, todo o filme. O resultado é um filme muito aquém do expectável, que desce a fasquia sobre o realizador e mantém o olhar superior do actor. Não é conhecido novo projecto de Cronenberg, mas assim estamos mal. Aos génios exige-se mais do que a banalidade do gesto.