Objectos Felizes II

O gajo é brilhante. Já o era nos Ornatos Violeta (que só no fim de carreira foram devidamente reconhecidos), já o é nos Pluto, nos Supernada, em Tenaz, e agora sozinho. Manel Cruz é talvez a melhor coisa que aconteceu à cena musical portuguesa nos últimos tempos. O novo projecto que, reza o mito, começou há muitos anos, tem o espantoso nome de Foge Foge Bandido, e é isso mesmo, um projecto. No caso, é um livro de 140 páginas e um duplo CD. O livro é profundamente ilustrado pelo Manel. Os CDs, de nome O Amor dá-me tesão e Não fui eu que estraguei, têm cerca de 40 faixas cada um. Faixas. Porque lá dentro há catalães aos berros nos anos 40, há electrónicas e acústicas, há fodidas e lixadas, há letras do outro mundo, há missas de uma igreja em brasileiro aos berros, com o Manel a beter o bedelho, há um casal com mau hálito e alguém que aprendeu a ser puta na TV, há histórias de amor, e uma vida de merda, franceses romanceados, alguém a bater à máquina, pedidos de liberdade para macacos. "Ninguém é quem queria ser/eu queria ser ninguém". O Manel pensou que isto era bom demais para aparecer aí nas esquinas dos hipermercados e vai daí a coisa só existe, e bem, via CDGO.COM, com a chancela da Turbina. A primeira edição voou, e parece que a partir de dia 30 há uma segunda. A complementar, o espantoso site do projecto, com tudo desenhado pelo Manel, músicas para audição, vídeos, o diabo a quatro, num tremendo exercício de criatividade e bom gosto. Está, claro está, em FogeFogeBandido.com. E para quem estiver ou passar no Porto, até ao fim do mês, estão expostos os desenhos originais que fazem parte do trabalho, mais concretamente na Gesto Cooperativa Cultural, na rua Cândido dos Reis, 64. A ver, comprar, ouvir, ouvir, ouvir. "Imaginem um abraço/o meu queixo pousado no teu ombro/e eu viajando no teu cheiro pelos/trilhos do silêncio/é o cenário possível de um homem/sozinho de cerveja na mão/sentado na varanda olhando a lua e a/comer pimentos padrão/comê-los contigo era perfeito como/olhar esta cidade à noite/olhá-la contigo era pensar noutras/formas de ver".