Vertov

Em 1929, um senhor bem simpático chamado Dziga Vertov (antes Dziga que Felisberto) deu-se ao trabalho de andar a filmar a rotina de gentes russas por terras russas. Mais do que isso, deu-se ao trabalho de andar a filmar quem filmava gentes russas, sabendo-se hoje que o Estalinismo tinha uma atracção quase física pelo cinema e pelas suas potencialidades ao serviço da revolução. "O Homem da Câmara de Filmar", assim se chama o filme de uma hora de Vertov, é muito mais do que uma colecção de fitas aleatórias sobre os gajos que andavam de cidade em cidade a filmar os russos no seu dia a dia. É, possivelmente, a primeira auto-reflexão consciente sobre o cinema. Antes dele, já outro conterrâneo (cujo nome não me recordo) tinha realizado "O Espirro", pequena curta-metragem que assume o dispositivo cinematográfico e a sua presença, sobretudo no último plano onde a própria câmara treme com, claro está, um espirro. Em 2001, a propósito da Porto2001, uns senhores bem simpáticos denominados Cinematic Orchestra deram-se ao trabalho de compor uma imaginária banda sonora para "O Homem da Câmara de Filmar", pintando de sons o filme mudo que encheu já páginas de livros sobre cinema (leiam os breves parágrafos que João Mário Grilo escreveu em "A Ordem do Cinema").

Como sou um tipo chato, não compro tudo o que gostava. E sou um gajo interessado em novas tecnologias, o que converge em pirataria da grossa. Mas ao contrário do que, creio, é normal, não me interessa O Senhor dos Anéis em divx antes de estrear em cinema (ó desperdício visual!). Interessam-me antes filmes de Vertov ou Eisenstein que não estão à mão de semear. Vai daí, procurei "O Homem da Câmara de Filmar", e dei-me ao trabalho de o codificar em MPEG2, ou seja, DVD vídeo. O software que uso faz o encoding ao mesmo tempo que vai mostrando frames salteados. E toda a maravilha está aqui: conheço hoje três versões do filme. A original, muda que nem uma velha. A alterada pelos Cinematic com os seus sons, que mostram uma Moscovo que não tem nada de comuna. E a do software, que pega no filme mudo a preto e branco e insere falhas nos frames, modificando a minha percepção. Se quiserem pensar sobre isto, vejam o mesmo filme no cinema duas vezes, uma na primeira fila e outra na última. E nunca mais verão cinema da mesma forma.

PS: Tenho dias em que sou um bocado alienado, eu sei, mas faço por isso.