Défice às 15

Não li, como o comum dos mortais não leu, o relatório da Comissão Constâncio. Provavelmente também não compreenderia grande parte. Mas há coisas que convém pensar:

1) – É uma palhaçada (sim, palhaçada) os líderes dos partidos com assento parlamentar virem dizer que estão “chocados” e que “não estavam à espera”. Bagão Félix dizia ontem na RTP que as contas do déficit eram muitos fáceis de fazer, e não eram necessárias semanas de uma comissão especializada. Bastava pegar no déficit previsto pelo orçamento e retirar-lhe as operações falhadas que o governo de Santana Lopes tentou levar a cabo (GALP, etc…) e contar com o crescimento actual neste momento (que é claramente abaixo de todas as perspectivas de Outubro de 2004). O resultado é muito próximo do valor de Constâncio. E portanto sejamos sérios: toda a gente sabia que o déficit era deste tamanho. Nos últimos anos não se tomaram medidas de fundo para resolver a questão (apenas se subiu o IVA para 19%, o que deprimiu a economia de imediato e não resolveu nada) e portanto os déficits apresentados por Manuela Ferreira Leite eram o déficit estrutural menos as medidas extraordinárias. Como Constâncio não conta com quaisquer medidas extraordinárias, o resultado serve-se cru;

2) – É outra palhaçada pensar que isto hoje era tudo muito lindo se se tivessem feito restruturações de diversos sectores do Estado na década de 90. Porque isso era praticamente impossível. E porquê? Porque temos 30 anos de país real (antes do 25 de Abril era virtual, não havia prisões reais, nem denúncias reais, nem miséria real, era tudo “ordem”) e tivemos que começar tudo do zero. Tudo. E não somos noruegueses nem suecos. E, portanto, era praticamente inevitável que o que se passa hoje viesse a acontecer;

3) – Isto não quer dizer que tinha que ser tudo como foi. Cavaco podia não ter dado os benefícios sociais que deu, não teria ganho a maioria absoluta. Guterres podia ter compreendido que era altura de racionalizar a administração pública, não teria ganho o segundo mandato. Mas o problema é sempre a segunda parte da frase. Porque parece que não há ninguém que chegue e diga que “não me interessa o segundo mandato”. E isso é que era preciso, alguém com “espírito de missão”. Haverá?

Daqui por alguns minutos, vamos saber que há aumento de impostos mas que não há despedimentos na administração pública, que há alteração da idade para reforma mas que não há racionalização de procedimentos do Estado. Se daqui por minutos eu tiver razão, já volto.