Last Days



Como sou um tipo assim meio esquisito, a minha adolescência teve Shostakovitch em vez de Pearl Jam, Mozart em vez de Nirvana. Ou seja, enquanto os meus colegas vestiam de preto e punham umas olheiras a armar ao grunge, aqui o vosso amigo dava-se à música clássica (mas curiosamente ouvia Guns N'Roses, mas isso fica para outra altura). Daqui decorre que não tinha o espírito urbano-depressivo que percorreu o final de 80's e início de 90's. Decorre ainda que só dei conta de Kurt Cobain, realmente, quando o Telejornal da RTP abre com o suicídio. Não, não fui a correr comprar os CDs, nem passei a venerar o senhor, mas sei hoje que os Nirvana e todo o movimento grunge têm e tiveram uma importância dentro da música "popular" (no sentido científico do termo, isto é, a que chega a mais ouvidos) muito significativa. E mais do que isso (e isto vai parecer tétrico) tenho um fascínio por suicidas. Porquê? Não sei bem. Bem, mas isto tudo para falar de "Last Days", o novo de Gus Van Sant. Não é Cobain na foto, é Michael Pitt. "Last Days", rezam as boas línguas, é daqueles filmes que se gosta antes de se ver. É possível gostar de um filme antes de o ver? É, da mesma forma que é possível não gostar depois de ver. Ao que parece, "Last Days" é e não é sobre Cobain. É porque surge um Michael Pitt loiro com a barba por fazer e um olhar alucinado, e porque Van Sant assume que se inspirou em Cobain. Não é porque não há Nirvana, nem Courtney Love, nem grunge, nem trips, nem multidões, nem agonia ruidosa, nem Cobain. Ao que parece, há um bosque, um rio, e um tipo loiro por lá, com cara de tudo e de nada, solipsista, refugiado de si mesmo. Blake. E ao que parece, mata-se da mesma forma que morrem pessoas em "Elephant": de forma simples, árida, sem gritos, como se a morte fosse apenas uma brisa que surge na tarde errada. À revista "Inrocks" disse Van Sant que "Kurt parecia sofrer por todos nós. Para mim, o seu suicídio teve menos a ver com uma tomada de acção mais ou menos heróica, com o resultado de uma patologia, do que com uma simples retirada. Kurt quis retirar-se da realidade, escondeu-se, apagou-se. 'Last Days' não é, em todo o caso, um 'biopic', mas a crónica modesta de um desaparecimento, a história de um rapaz que, à força de se sentir exterior em relação ao que vivia, se evaporou no fim." "Last Days" está na corrida à Palma de Ouro de Cannes, daqui a dias.