Dia 4: Bruxelas

Estação de Bruxelas Central, qual metro de S. Sebastião antes das obras. Inclinação das ruas, ausência de canais. Edifícios largos, ocupando quarteirões. Um parque, à semelhança de Paris ou Madrid (não de Lisboa) perde-se de vista à porta do palácio, fechado. Alguns homens simulam guarda às portas da fachada, encerrados na sua rotina de gestos lentos e firmes, dir-se-ia hirtos. À Place Royal, uma pequena loja de design faz saldos, com um funcionário ocasional a guardar as peças de artistas aprendizes. Ao lado, um restaurante estende-se da vidraça inicial tapada ao longo de um corredor, arte deco, cheiro a ervas e alcatifa, Beatles em lume brando ao canto da parede. Fotografias do chef e da esposa, ele de barrete a polvilhar o salmão de salsa em imagem real, ela a saltitar de mesa em mesa como se os sessenta fossem à hora de almoço. Chuva. Violinos espreguiçam-se do edifício na curva, enquando três bonecos simulam jam session de costas para a rua. Escadas e a cidade desce para além dos degraus. Uma galeria de toupeiras rés-do-chão de um edifício com vista para relva esconde alfarrabistas. Cachimbo ao canto dos lábios, óculos redondos de Tintim. Chuva a ameaçar. Cheiro a gauffres em cada esquina. Ruas apertadas, edifícios pontiagudos. Chineses a polvilhar o ar. Nas arcadas esfrega-se a perna de uma criatura dourada, deitada sobre si mesma, a oferecer as formas ao tacto alheio. Ao canto, morangos a mergulhar em chocolate branco para turista ver, vidro limpo, frutos perfeitos. Ao fundo, meio metro de bronze urina estaticamente sobre os olhos ampliados de chineses, à esquina. Concubinato de flash e sorriso pepsodent. Cheiro a gauffres em cada narina. O chocolate enche a boca como um vinho, subtil no aroma, a invadir o palato sem rancores. Chuva a esquecer a ameaça.