IndieLisboa2007: Falkenberg Farewell (*****)

E ao quarto dia, uma tremenda surpresa. Falkenberg é uma pequena vila sueca junto à costa, perfeitamente arrumada nas suas moradias com jardins cuidados e bicicletas a passar. O Verão é ameno. Holger, John, Jorgen, David e Jesper cresceram juntos, e são hoje jovens perto dos trinta sem ambições ou projectos de vida. Habitam a casa dos pais, lentamente, e sentem-se, no tempo como no espaço, crianças. Falkenberg Farewell é um belíssimo documento existencialista e holístico sobre a memória e o tempo. Espanta desde o primeiro minuto a recusa de um futuro. David, que se assume como a voz que pensa o filme, cedo nos avisa que quer lembrar-se do passado. Em vez de projectos profissionais, ocupa-se das memórias de infância, pintando o filme com imagens de arquivo de crianças sorridentes e felizes, em atmosferas de conforto. Em vez de Gotemburgo, prefere os canaviais de Falkenberg, por onde vagueia, nu, no desejo que uma essência de infância que os habita não se disperse. Todos, por uma via ou outra, recusam crescer e agarram-se à terra como último habitat de verões compridos e invernos ausentes, numa comunhão com um tempo e espaços essenciais, não perturbados na sua placidez. O limite, naturalmente, é a morte, espaço de permanência da memória tal como está, sem futuro. Falkenberg Farewell é a primeira longa-metragem de Jesper Ganslandt, realizada com uma pequeníssima equipa e praticamente sem orçamento, em que os actores são eles mesmos, Holger, John, Jorgen, David. Os planos são de uma estética desarmante, a fotografia de uma pureza rara, o tom de uma honestidade profunda, o pensamento claramente invulgar. A passar em Competição Internacional, o filme sueco surge como um enorme candidato à vitória do Indie. Volta a passar esta terça, dia 24, pelas 18:45h, no S. Jorge.