Eleições: Madeira

A SIC acaba de avançar números: terão sido 70 por cento dos madeirenses votantes os que consideram que o "tio Alberto" é a melhor opção para a ilha. Tendo estado quinta e sexta-feira no arquipélago, assaltam-me algumas ideias:

1) - É transparente a falta de identificação dos madeirenses com o país. E isso, em grande parte, resulta do discurso bacoco e gratuito de Alberto João Jardim ao longo de 30 anos. A mensagem, à semelhança de qualquer regime totalitário, é repetida até à exaustão, criando na mente de cada um o inimigo invisível, eterna razão de desgraças e permanente atentado à Madeira. O resultado final é uma região com fortes laços identitários internos, mas praticamente sem qualquer ligação com a "nação";

2) - É também transparente a falta de capacidade ou desejo de qualquer detentor de cargo político nacional em tentar alterar a situação ou, quanto muito, promover um tipo de respeito por parte de Alberto João que simplesmente não existe. A campanha na Madeira foi um folclore com bailinho local, mas sem participantes de fora. Sócrates não meteu lá os pés, Marques Mendes nem no continente se vê. Apenas Portas e Louçã meteram asas ao caminho, e sobretudo porque lhes interessa, pessoalmente no primeiro caso, politicamente no segundo. O que diz bem da situação. Nem Cavaco, que conhece de perto Jardim, se atreve a abrir a boca. Basicamente a situação é tida como perdida, e apenas do ponto de vista legislativo se consegue fazer alguma coisa (veja-se a nova lei de finanças que deu o mote à demissão de Alberto João). O que, democraticamente, não deixa de ser uma vergonha;

3) - O que talvez não será tão transparente é a incapacidade dos madeirenses em serem minimamente razoáveis. Sim, praticamente tudo na ilha está na mão de Jardim, mas dar a maior maioria absoluta ao fim de trinta anos de prepotência, corrupção e intimidação (dos media, por exemplo) é a melhor prova de cobardia possível. Ou de egoísmo. No fundo, ao passar no centro do Funchal, a ideia que fica é a de que os madeirenses sabem que, face ao continente, não terão ninguém melhor: na defesa de verbas, na manutenção da zona franca, na continuidade de um estado de suspensão económica alicerçado no turismo e que dispensa grandes contributos para o PIB nacional, em termos de actividade económica real: empreendadorismo, investimento a longo prazo, relacionamento bilateral com o continente, Espanha, Marrocos. O voto madeirense em Jardim é não só o voto do conformismo como do umbigo. Pode dizer-se que não há alternativas. E das alternativas diz-se que não surgem porque não vale a pena lutar contra o estabelecido. E nisto a Madeira arrasta-se no marasmo democrático que o continente deixa assentar. Jardim duracell.