DocLisboa 2007

De novo, Outubro. E de novo, o DocLisboa. De novo, a frustração de não poder ver muita coisa. Mas de novo a oportunidade de uma felicidade breve, fora da realidade. Este ano sublinham-se, à partida:

1) -Elle s'appelle Sabine, de Sandrine Bonnaire (França, 2007, 85', Competição Internacional): O primeiro e inesquecível filme da actriz Sandrinne Bonnaire (protagonista de obras de Maurice Pialat, Claude Chabrol e Jacques Rivette) é dedicado à sua irmã autista, Sabine. O filme reúne vinte e cinco anos de filmes e fotografias de família e revela o processo pelo qual a personalidade da irmã foi destruída não só pela doença, mas também por um sistema de saúde incapaz de diagnosticar e apoiar adequadamente os pacientes autistas. Repleto de afecto fraternal mas sem qualquer concessão ao sentimentalismo fácil, "Elle s'Appelle Sabine" é um acto político de grande coragem. Através de um caso particular, o filme questiona o sistema de saúde psiquiátrico e o funcionamento das famílias, que tantas vezes julgam proteger-se do sofrimento afastando os inadaptados.

2) - Jesus Camp, de Heidi Ewing e Rachel Grady (EUA, 2006, 85', Competição Internacional): "Jesus Camp" é um filme sobre um campo de férias para crianças organizado pelo movimento de cristãos evangelistas americanos. Acreditando que as crianças devem estar na vanguarda do cristianismo evangélico, o campo incute-lhe um proselitismo militante (as crianças são persuadidas a "devolver a América a Cristo") e encoraja-as a participar activamente nas causas conservadoras promovidas pelas suas igrejas: entre muitas outras, a defesa das teorias creacionistas sobre a evolução da vida na terra, a relativização dos perigos do efeito de estufa, ou a luta pela ilegalização do aborto nos Estados Unidos. A controvérsia provocada pela estreia do filme nos Estados Unidos acabou por levar ao encerramento do campo.

3) - Rebellion: The Litvinenko case, de Andrei Nekrasov (Rússia, 2007, 105', Competição Internacional): "Rebellion: The Litvinenko Case" foi apresentado em primeira mão no último festival de Cannes, numa sessão coberta de secretismo e com importante aparato de segurança. Este documentário toma o assassinato de Alexandr Litvinenko, ex-agente da polícia de segurança russa (o FSB, sucessor do KGB), como ponto de partida para denunciar a política de medo instigada por Putin para controlar a oposição. Segundo Nekrasov, o FSB tem sido o principal instrumento dessa política, ameaçando e até mesmo matando todas as vozes críticas do regime. Além das entrevistas com Litvinenko, envenenado em Londres com material radioactivo depois de ter denunciado as acções ilegais da FSB, o filme de Nekrasov inclui ainda entrevistas com Anna Politkovskaya, a jornalista assassinada em Moscovo em 2006. Sem qualquer pretensão de objectividade, "Rebellion: The Litvinenko Case" é um filme-bomba arremessado contra a Rússia de Putin.

4) - SchoolScapes, de David MacDougall (Austrália, 2007, 77', Competição Internacional): Inspirado pelo cinema dos irmãos Lumière e pelas ideias do pedagogo indiano Jiddu Krishnamurti, o realizador australiano David MacDougall, nome fundamental do "cinema etnográfico", rodou este filme experimental na Rishi Valley School, no sul da Índia. Fundada por Krishnamurti, a escola é conhecida por aplicar os seus métodos de aprendizagem centrados na observação do mundo. Foi essa mesma premissa que marcou o início do cinema e que mais entusiasmou os primeiros espectadores. "SchoolScapes" tenta recapturar essa frescura da observação do mundo através de uma série de planos dedicados ao acto, tão simples, de olhar o que está à nossa volta.

5) - The Halfmoon Files, de Philip Scheffner (Alemanha, 2007, 87', Investigações): Durante a Primeira Guerra Mundial, os prisioneiros de guerra detidos no campo de "Halfmoon", nos arredores de Berlim, foram objecto de vários projectos de investigação científica. Um desses projectos consistiu na gravação das diferentes línguas e canções daqueles soldados, provenientes maioritariamente das colónias europeias na Ásia e na África e por isso considerados tão "exóticos" pelos cientistas alemães. Essas gravações fonográficas, que constituem hoje o acervo principal do Museu do Som de Berlim, foram o ponto de partida de "The Halfmoon Files", recuperação fantasmagórica de um passado a que apenas se pode aceder pelo som. Construído como um puzzle, reunindo peças dispersas de uma cuidadosa investigação, o filme é uma bela homenagem aos desaparecidos da história.

6) - Arquitectura de Peso, de Edgar Pêra (Portugal, 2007, 24', Competição Nacional): Respondendo a um desafio da Trienal de Arquitectura de Lisboa, o último filme-provocação de Edgar Pêra mostra quatro grandes obras públicas que "projectaram" Portugal na Europa: o Centro Cultural de Belém - onde há quatorze anos Portugal presidiu à CEE; o Parque das Nações - palco da Expo’ 98; Os estádios de futebol - para o Euro 2004; e a Casa da Música - originalmente concebida para o Porto Capital Europeia da Cultura 2001. Recorrendo a imagens de arquivo e à música de Nel Monteiro, "Arquitectura de Peso" é o resultado do confronto de um "tempo de antena musical popular" com o documentário de propaganda de arquitectura do Estado.

7) - JLG/JLG: Autoportrait de Décembre, de Jean-Luc Godard (França/Suiça, 1994, 55', Diários Filmados e Autoretratos): "JLG/JLG: Autoportrait de Décembre" é tudo menos um auto-retrato feito para a eternidade, uma biografia pormenorizada ou um testamento artístico. Godard propõe-nos, muito pelo contrário, o registo de um momento específico da sua vida através de um filme feito de planos fixos das paisagens nevadas do lago Léman e do interior da sua casa, assombrada pela silhueta do realizador e por uma banda sonora onde se cruzam duas vozes, a do realizador e a do "actor".

8) - Sicko, de Michael Moore (EUA, 2007, 74', Sessões Especiais): O novo filme de Michael Moore combina o humor com o horror para denunciar as debilidades do sistema de saúde americano, minado por décadas de subfinanciamento público e pela concorrência dos seguros privados. Recorrendo mais uma vez ao seu estilo de investigação muito particular, Moore revela os casos de doentes americanos cujas vidas foram destruídas e compara o sistema americano com o de outros países, como o Canadá, França ou Cuba, acabando por concluir que a melhor maneira de permanecer saudável nos Estados Unidos é mesmo não adoecer.

9) - When the Levees Broke: a Requiem in Four Acts, de Spike Lee (EUA, 2006, 240', Sessões especiais): Não foi o furacão Katrina que destruiu Nova Orleães: foram os diques, quando cederam à força das águas e inundaram grande parte da cidade. Filmado logo após o desastre, o último filme de Spike Lee é um retrato tocante dos efeitos de uma das piores catástrofes que jamais atingiu os Estados Unidos. Com depoimentos de mais de cem pessoas, "When the Levees Broke" dá conta de tragédias pessoais e das estratégias de sobrevivência de uma cidade habituada a lutar contra a adversidade, mas absolutamente incapaz de imaginar que, abandonada pelo seu próprio governo, seria obrigada a enfrentar sozinha toda aquela destruição. Ninguém em Nova Orleães esquecerá que ao visitar a cidade após a catástrofe o presidente nem sequer saiu do avião. Preferiu ver apenas a cidade de cima. Com música de Terence Blanchard. Vencedor do Human Rights Film Network Award e do Venice Horizons Documentary Award no F stival de Cinema de Veneza em 2006.


Pelo amor da Santa, vão ao cinema. DocLisboa 2007, de 18 a 28 de Outubro.

(textos retirados do programa oficial, disponível em http://www.doclisboa.org/downloads/pt_programa_2007.pdf)