The Death of Mr. Lazarescu (*****)

[sobre "A morte do Sr. Lazarescu", agora em cartaz, recupero texto de Maio 2006, quando da passagem pelo IndieLisboa]



O senhor Lazarescu está condenado. Dói-lhe o estômago, vomita desde manhã, dói-lhe muito a cabeça. É um velho coitado que vive em Bucareste, com três gatos, uns vizinhos pouco prestáveis, um problema com o álcool, uma filha que emigrou para o Canadá, um apartamento sórdido. Está condenado, os médicos vão dizer-nos que tem um neoplasma no fígado e pressão intra-craniana. Cancro e traumatismo, qualquer um dos dois fatal. The Death of Mr. Lazarescu é, por título, literal: são os 153 minutos da literal morte do senhor Lazarescu. E aqui a primeira perfeição do filme de Cristi Puiu, uma ode à mortalidade. O espectador assiste, de forma consciente, literal e completa, à morte do senhor Lazarescu. Em termos abstractos ou filosóficos, se quisermos, no limite, todos assistimos à morte uns dos outros, na medida em que todos estamos a morrer a cada segundo. Mas se quisermos restringir um pouco a coisa, e não caírmos no radicalismo de considerar a morte o singular instante em que o músculo maior pára de bater, chegamos à morte do senhor Lazarescu: duas horas e meia literais em que o personagem está, literalmente, a morrer. A cada segundo o organismo do senhor Lazarescu piora, o cérebro sente a pressão e abranda cognitivamente, o fígado sente o cancro a alastrar e desiste de si mesmo. E isto era o suficiente para matar o senhor Lazarescu em duas horas e meia? Não. E aqui a segunda perfeição do filme de Cristi Puiu: o senhor Lazarescu morre em duas horas e meia porque vive em Bucareste, com vizinhos pouco prestáveis, hospitais surreais, médicos absurdos, uma filha que emigrou para o Canadá, ambulâncias que percorrem a noite de hospital em hospital, o azar de um acidente de autocarro que vitima algumas pessoas e domina as cabeças romenas numa noite. Quando o senhor Lazarescu entra na ambulância para o hospital, já o filme se afastou bem do início e o espectador já percebeu que a Roménia, para além do cancro e da pancada na cabeça, é fatal. Quando o senhor Lazarescu, espirituoso e mal-humorado, chega ao primeiro hospital, já o espectador percebeu que não vai ser o primeiro, nem o último, e que a morte apenas se acelera ao comando do médico estalinista que lhe chama bêbado (o que é verdade) e que o despacha para outro hospital, porque está tudo cheio por causa do acidente de autocarro. Os romenos do acidente têm sangue à vista, o senhor Lazarescu só tem bafo de álcool e mau feitio à vista, a morte é relativa. A morte dos romenos do acidente é um drama, coitados, a morte do senhor Lazarescu nem se vislumbra. Mas nós vemos o senhor Lazarescu a morrer. E antes disso, a descer aos infernos, a perder a capacidade de fala, a não ter capacidade para assinar um termo de responsabilidade para ser operado e, consequentemente, a ser recusado por um médico legalista que o despacha para o próximo hospital, enquanto procura, prioritariamente, um carregador Nokia para o seu telemovel. E o senhor Lazarescu morre? Não. E aqui a terceira perfeição do filme de Cristi Puiu: o senhor Lazarescu não existe. Mas nós vemos o senhor Lazarescu a morrer aos bocadinhos, a vomitar sangue, a entrar e sair de hospitais, a fazer um TAC ao cérebro. E ao fim de cinco, sete minutos (como o lusco-fusco) já nos esquecemos que o senhor Lazarescu não existe e olhamos para o senhor Lazarescu como alguém que está, literalmente, a morrer. Ou seja, Puiu filma de forma brilhante uma ficção com cara de realidade. Não é, assim, Puiu que mata o senhor Lazarescu, mas a Roménia, o sistema de saúde romeno, os vizinhos romenos, as ambulâncias romenas, a noite romena, os médicos romenos, os acidentes de viação alheios romenos. E, assim, Cristi Puiu filma uma Roménia (haverá outras) que mata o senhor Lazarescu. The Death of Mr. Lazarescu é um filme duro, pensado, difícil, literal e ficcional, realista e abstracto, sobre a mortalidade e sobre o absurdo da realidade. Foi premiado em Cannes em 2005, com o prémio Un Certain Regard, e noutros tantos festivais, e não deve sair de Lisboa sem uma menção especial. É cinema independente no seu melhor, com tudo no sítio, incluíndo o espectador. Não há muita gente a fazer filmes assim.