Antes de tempo

Não vou ser cínico nem pseudo-intelectual e dizer que sigo o percurso de Beatriz Batarda desde pequenina. Confesso mesmo que não sigo. Mas recentemente, no espaço de 2 semanas, converti-me ao pequeno grupo de maníacos do cinema e desta coisa muito difícil que é "ter gosto" e vi três filmes nos quais a actriz surge como protagonista. E, meus amigos, converti-me de alma e coração.

Em "Noite Escura", do amigo Canijo, Batarda usa rabo de cavalo e uma face rude de quem controla putas e os copos que os gajos que f.... com elas bebem ou não bebem. Em "Quaresma", de um amigo cuja nome não me está presente, Batarda usa um olhar mágico de campo aberto e transporta as notas do Bernardo Sassetti serra abaixo, como quem mora na Islândia. Em "A Costa dos Murmúrios", Batarda faz-se alien em Maputo, quando a guerra é um ser estranho que não se entranha na pele e a opinião vale tanto como a areia das praias vazias em redor.

Não sou suficientemente presunçoso para dizer que conseguia ser crítico de cinema. Trabalhei com vários para saber que a sua análise e o seu conhecimento da história do cinema me ultrapassam de forma inesgotável. Mas tenho para mim que Beatriz Batarda será talvez a maior actriz do cinema português das próximas décadas. A sua capacidade camaleónica é impressionante. É uma esquizofrenia saudável, digamos. A única semelhança entre a Carla que limpa o sangue de uma prostituta russa na sala dos fundos e a Evita que trai o marido por se sentir sozinha numa Maputo à beira da guerra é um nome no genérico. Não sei de onde vem, como surgiu, se fez casting ou se pensa em rapar o cabelo para um anúncio do BPI (esperemos que não), mas não a percam de vista. E vejam os filmes, seja sobre putas ou a guerra colonial.