Touriga Nacional, Reserva 2004

Quem me conhece muito bem (será número suficiente para ser plural?) sabe que, em tempos, militei activamente na Juventude Socialista. Inscrevi-me aos 17 anos, no mesmo jantar onde conheci António Guterres (guardo a imagem de um homem pequenino e frágil, quando ainda as vozes críticas eram poucas e a sua simpatia muita). De pouca dura por problemas de consciência, a militância dividiu-se entre ir às reuniões ou não ir, entre participar activamente ou não. Curiosamente, acabei por decidir afastar-me no mesmo dia em que conheci Mário Soares, na campanha que o havia de conduzir a Bruxelas (guardo a imagem de um homem leve com mãos muito suaves, quase sem peso). No entretanto, resolvi os meus problemas de consciência, que oscilavam entre a escolha de uma profissão do outro lado da barricada (o jornalismo utópico, à data) ou o assalto ao poder mediático, que numa qualquer organização política se revela fácil para quem prefere pensar os problemas, mesmo que apenas aparentemente, em vez de colar cartazes. Mas para além disso, outra questão me assolava: o dilema entre ter o trabalho de participar ou a preguiça do afastamento. Escolhi a preguiça. O plano mediático e político, ao contrário do que se pensa, exige reuniões vazias de ideias e plenas de retórica, muitos eventos sem objectivo, muita chatice. A parte das ideias, quando existe, é esbatida pela discussão de 3 horas sobre os procedimentos para meter o dedo no ar para falar, ou como se escreve uma acta.

Tudo isto para dizer que é difícil compreender como alguém ingressa na carreira política de acordo com as normas partidárias, ou seja, sem ser um independente convidado. A colheita de bons políticos que marcava a utopia do discurso de Mário Soares nunca será feita. Os que entraram quando os gestores ainda não ganhavam 17 mil contos mês são hoje o que se vê, com ou sem acusações de caudilhismo.

Uma reportagem na SIC anteontem dava voz a uma enfermeira reformada do hospital de Santa Maria em Lisboa, conhecida de Jorge Sampaio. A senhora, com expressões claras de esquizofrenia e cabelo de enfermeira reformada, falava do Sampaio que "se escondia nas camaratas do hospital, para fugir à Pide". Hoje Sampaio dirá algo inverosímil para justificar aquilo que todos sabíamos necessário. E, se fosse de boa safra, demitia-se e pedia à senhora enfermeira para o cobrir com o lençol, para ninguém o descobrir.