Rei Tony por quanto tempo o trono?

"Isabel e Filipe, Carlos e Diana, Posh Spice e David Beckham, Hugh Grant e Jemima Goldsmith mas decididamente não Carlos e Camilla os britânicos parecem necessitar de obsessões de longa duração com a realeza, e, quando os Windsor perdem o brilho, as estrelas do rock, do desporto, do cinema e as bilionárias preenchem a falha na psique nacional.

Estranhamente, no último meio século este fascínio pelos reinados prolongados alargou-se à esfera política. Os britânicos desenvolveram um gosto pelos políticos duráveis igual ao que mantêm pelos monarcas constitucionais, ou seja, pelos longos períodos de Gover- no de um só partido. 13 anos de conservadorismo com Churchill, Eden, Macmillan e Douglas-Home foram seguidos por uma década e meia dos governos trabalhistas de Wilson e de Callaghan, interrompida apenas pelo breve interregno de Heath. Depois vieram 18 anos de Thatcher e Major. Agora parece que o Novo Trabalhismo de Tony Blair vai ganhar um terceiro mandato, e tal é a desorganização dos seus inimigos que talvez venha a ganhar um quarto.

A supremacia do Rei Tony é ainda mais notável quando verificamos como ele desagrada a tanta gente. Quando subiu ao poder pela primeira vez, em 1997, o veterano trabalhista Denis Healey chamou-lhe "a princesa Diana da política", uma referência não à delicada fragilidade da princesa mas sim à sua inextinguível popularidade. Agora ele já é mais o príncipe Carlos do que a princesa Diana - resmungão, doutrinário, inatingível.

Quem é Tony Blair? Conhecemos as suas máscaras - o sorriso juvenil do período inicial, o olhar diabolicamente furtivo da época pré- -guerra, as expressões mais fechadas e mais preocupadas dos últimos tempos -, mas é espantoso que, depois de oito anos no n.º 10 de Downing Street, ele continue a ser uma espécie de enigma, com atitudes sempre inesperadas, como o mensageiro anglo-saxónico de Lewis Carroll, "a saltitar para cima e para baixo e serpenteante como uma enguia", sendo a sua verdadeira natureza escorregadia e difícil de definir.

Sabíamos, desde início, que ele tinha algo de maníaco do controlo com um toque de oportunista. Sabíamos, também, que ele era contraditório o líder de um partido socialista democrático que nunca usou a palavra "socialismo". Em Fevereiro de 1998 eu era um convidado num jantar em Chequers, a propriedade de campo de Blair, e, quando o ouvi elevar a voz para começar a falar de liberdade, pensei, "Estou interessado nisto" e prestei atenção. Alguns momentos depois percebi que ele estava a falar de liberdade de mercado, nos termos que qualquer primeiro-ministro conservador poderia ter falado, mas que nenhum líder trabalhista anterior teria usado. Mas estávamos ainda em período de estado de graça do Novo Trabalhismo e a memória da vitória de 1997 estava ainda quente.

"Deixa estar", disse para mim mesmo, "este é um homem decente e capaz e ninguém é perfeito".

Eram esses os trunfos de Blair decência, integridade, competência. A sua pontuação nos dois primeiros itens sofreu alguns danos sérios. Mas se ele não é decente, o Tony confiem-em-mim, então quem é?

Aos olhos de muitos antigos apoiantes, ele é o sujeito que se safou com uma acusação de assassínio, lançando uma guerra baseada numa mentira inconsistente e sustentando-a descaradamente depois quando o caso contra a sua decisão se tornava cada vez mais forte, agarrando-se ao poder quando muitos, talvez todos, os seus predecessores teriam resignado.

É quase doloroso recordar agora os dias inebriantes da cool Britannia, quando existia um glamour de tablóide, de terceiro milénio, à volta do n.º 10. A aura de estrela pop funcionou também no estrangeiro quando Blair visitou Moscovo em 1997 e deu uma volta de metro, as meninas de escola russas gritaram como os maníacos dos Beatles nos anos 60.

Na cobertura que The Economist fez da primeira reunião do partido após as eleições, citou um observador anónimo que disse "Ele podia anunciar a matança dos filhos primogénitos e mesmo assim seria ovacionado de pé."

Bom, Blair ordenou uma matança, mas ninguém se levantou para aplaudir. E o mistério mantém-se porque é que Blair comprou a guerra de Bush? Porque é que ele não insistiu que fosse permitido aos inspectores de armamento das Nações Unidas cumprirem o seu trabalho e que se formasse uma genuína coligação anti-Saddam - como, com o devido tempo, se teria certamente formado? Qual era a pressa? Porque é que ele adoptou o unilateralismo de Bush e a agenda ideologicamente dirigida de Wolfowitz?

Terá sido porque ele e Bush têm em comum uma profunda fé religiosa e concordaram em embarcar numa nova cruzada? Não, demasiado simples. Terá sido porque ele acreditou nos relatórios cheios de falhas dos serviços secretos? Não, também isto não é credível porque o seu pessoal mastigou tanto quanto possível essas informações para justificar a guerra.

Um antigo adjunto de Clinton colocou-me a coisa da seguinte forma "Ele vendeu a alma ao Diabo sem se incomodar sequer em receber algo em troca."

Esta é uma visão quase trágica de Blair, a de alguém que fez a coisa errada porque acreditava ser a certa e sacrificou o seu bom nome para nada, um Fausto puritano condenado ao Inferno sem experimentar primeiro qualquer delícia terrena. Quase sentimos simpatia por uma tal figura, mas seria uma visão mais fácil se Blair mostrasse alguns remorsos.

Na ausência destes, devemos pesquisar no manifesto trabalhista a última gota que faz transbordar o copo. A política britânica, assim como a norte-americana, do pós-11 de Setembro e pós-guerra do Iraque, tem sido caracterizada pelos atentados governamentais às liberdades civis e, se o manifesto der a mais leve indicação de continuidade desses atentados, então mesmo os votantes de toda a vida nos trabalhistas devem afastar-se de Blair e votar tacticamente para o derrotar.

Se, por exemplo, o manifesto voltar a introduzir a muito criticada proposta de criação de uma ofensa por "incitamento ao ódio religioso" que a Casa dos Lordes bloqueou com sucesso no mês passado e que iria sacrificar a liberdade de expressão com a finalidade de aplacar os votantes muçulmanos zangados com a guerra do Iraque, isso será uma última gota suficiente para mim. Eu posso ser persuadido a votar num maníaco do controlo, competente, mesmo que embaciado, mas não votarei num maníaco do controlo comprometido com inquisidores religiosos.

O Novo Trabalhismo pode vir ainda a descobrir que o lobby da livre expressão comanda uma base de eleitores maior que os islamistas e que brincar à política populista e estar preparado para derrubar liberdades fundamentais em prol de uma estreita vantagem eleitoral é um jogo que pode fazer o tiro sair pela culatra. O Rei pode ainda vir a ser destronado".

Salman Rushdie

Exclusivo DN/The New York Times Syndicate

Tradução de Cristina M. Queiroz