Espelho meu

Ora, acabou no CCB no passado domingo o período de exposição de “Espelho meu: Portugal visto por fotógrafos da Magnum”. Sábado não estava muita gente. Aliás, eram mais as fotografias do que as pessoas. Para quem não sabe, “Espelho meu” eram um conjunto de imagens de fotógrafos da agência Magnum sobre Portugal, desde os anos 50 até a actualidade. A sala do fundo tinha o olhar de Cartier-Bresson. As iniciais tinham fotos de Susan Meiselas, Miguel Rio Branco e Josef Koudelka tiradas em 2004 e 2005, a pedido específico para a exposição. A meio, alguém teve a muito feliz ideia de passar o documentário “Outro país. Memórias, sonhos, ilusões: Portugal 1974-1975”. Confesso que nunca tinha visto, até porque duvido que alguma vez tenha passado na televisão portuguesa e de certeza que nunca foi editado comercialmente, mas é uma pérola. Na prática, é a ideia da exposição (o olhar estrangeiro sobre Portugal) na voz de fotógrafos e jornalistas que por cá andaram logo após o 25 de Abril. No dito filme alguém dizia que, anos depois, ao ver o que havia acontecido aqui pelo burgo, se espantou porque muitos tinham mesmo acreditado que era possível um país “revolucionário”, ou seja, na acepção comunista. E que se entristeceu porque compreendeu que a desilusão era verdadeira, na medida em que a ilusão havia sido real e palpável. Ora, em 1974 eu não era sequer um projecto de gente. E quando dei comigo a pensar nestas coisas já a revolução havia sido há 20 anos. Mas ao ver as imagens de Cartier-Bresson dá para compreender que Portugal era um país muito mais complexo e profundo que agora. Claro que há a aura histórica que me tolda a vista, mas o Portugal amordaçado, por todas as razões, era um país, do ponto de vista científico-histórico, mais interessante que a boçalidade actual. É óbvio que mais vale a boçalidade actual do que a mordaça de então. Mas para um fotógrafo, qual é o interesse do Portugal de 2005?

PS: se alguém souber como arranjar o documentário, agradeço penhoradamente (ou seja, penhoro-me todo…).