Cultura

Como é óbvio, na campanha eleitoral para as legislativas não se falou em Cultura. Não é tema apetecível seja em que eleições for, muito menos na conjuntura política, social e económica sob a qual decorreram as últimas legislativas. E portanto, não existiram razões objectivas para criar expectativas sobre o sector e alterações a ter em conta. Pelo menos, não expectivas superiores ao facto de se mudar de um governo de Santana Lopes para outro qualquer, o que implicava, sem mais discussão, qualquer mudança para melhor. Quando José Sócrates tomou posse, não disse para mim mesmo "agora é que é". Porque por todas as razões e mais algumas, agora não pode ser. Mas ainda assim, se olharmos retrospectivamente, as melhores golfadas de ar que o sector da Cultura teve em Portugal foi em governos socialistas, sobretudo nos anos de Carrilho. O PSD nunca teve uma noção minimamente aceitável de Cultura e continua, até aos dias de hoje, a enquadrar o sector dentro da estratégia do "tem que existir". Para o PSD, se se pudesse extinguir o sector, do ponto de vista da preocupação política do governo e do Estado, era já a seguir. Basta pensar que a Cultura só é Ministério desde Carrilho, antes sempre fora secretaria de estado e com Santana Lopes à frente, o que diz bem do que o PSD pensa da coisa. Com Durão e Santana depois, só não voltou a baixar a secretaria de estado porque o ruído seria demasiado grande. E portanto manteve-se a figura de Ministério, mas com poderes e capacidade económica piores que secretaria de estado. Com Sócrates, pelo menos, havia a perspectiva de uma melhor organização. Sim, já se sabe que não há dinheiro nem para mandar cantar um cego, quanto mais para o Ministério da Cultura. Mas estava tudo tão mal, que pior era difícil. Arranjar um ministro com dois dedos de testa era, pelo menos, fazer um esforço para reorganizar um sector em caos profundo. Ora, pelas últimas semanas já se compreendeu que Isabel Pires de Lima é um profundo erro de casting, acompanhada ao piano por Mário Vieira de Carvalho. Pronto, não são zombies estilo Pedro Roseta, mas a sementinha da incompetência está lá. No caso da Casa da Música foi a intervenção directa de Sócrates que permitiu fazer a coisa andar. No caso do CCB, enquanto Pires de Lima aparecia a dizer que não recebia ultimatos e que ia pensar no assunto, Sócrates resolveu a história Berardo e chamou Mega Ferreira, acabando com o regime ditatorial de Fraústo da Silva. Mega Ferreira, aliás, é a melhor notícia para o sector em anos. Há muitos anos também que defendo que Mega Ferreira devia ser Ministro da Cultura ou Presidente da Câmara de Lisboa. Nos dois lugares seria um farol de competência, exigência, cultura, organização. Ao que parece, quer agora no CCB fazer o que se impõe: refundar mais do remodelar. Ao que se diz, praticamente todas as direcções serão substituídas, procedimentos revistos, formatos repensados. Nas duas situações - Casa da Música e CCB - foi Sócrates que se deu ao trabalho de fazer o que era preciso ser feito. Ao que parece, a substituição de Lagarto por Fragateiro no Teatro Nacional D. Maria II já não parece ter tido dedo do primeiro-ministro mas antes da ministra, e o desastre está à vista. Lagarto tinha dois anos de trabalho no Nacional e estava a começar a criar uma dinâmica interessante, dadas as condições. Fragateiro vem de um Teatro da Trindade que evaporou do mapa cultural e que só tem tempo de antena com peças de Freitas do Amaral. Pior: Fragateiro enunciou como ponto principal do seu projecto a ideia de apenas programar textos nacionais. O escândalo é não só evidente como negro. Ter a noção que um Teatro Nacional apenas deve defender textos nacionais é tão sul-americano como terceiro mundista. É tacanho, para ser mais preciso. Dizia Lagarto ontem que o National Theater em Londres foi criado em 1963 e teve até hoje quatro directores, o que dá um por cada 10 anos, mais coisa menos coisa. Em Portugal continua-se com a ideia da nomeação dos directores das instituições sob controlo do Estado para irem lá "fazer umas coisas". Foram precisos mais de 10 anos para alguém meter Fraústo da Silva na rua, e apenas dois para Lagarto sair do D. Maria. Se esta lógica se mantiver e Sócrates não tiver os olhos abertos, Mega Ferreira não dura seis meses.