Good Night, and Good Luck (***)

A minha expectativa era grande. Bem grande. Porque o preto e branco me aguça o apetite. Porque McCarthy foi uma personagem do século XX no mínimo bizarra. Porque Clooney até parece ser um tipo com dois dedos de testa. E porém, lá se foi a expectativa. Mas, mais uma vez, voltemos ao princípio. Ed Murrow foi um tipo com tomates. Dos grandes, como a minha expectativa. Numa sociedade dominada pelo medo, Murrow apontou directamente à mosca. Sem pestanejar. Porque tinha que ser. Mai nada. E portanto, para mim, todo o trabalho de justificação que Clooney leva a cabo no seu Good Night, and Good Luck é desnecessário. A história encarregou-se de completar essa parte. Mas o homem por quem mais mulheres no mundo suspiram não conseguiu tirar o paizinho (o biológico) da carola, e tem tanta admiração por ele que fez um filme refém de um conjunto de questões. Primeiro, a centralização de Good Night, and Good Luck em Murrow é de tal forma que o filme não respira um segundo sem o olhar do jornalista. Mais: Clooney tem sempre um olhar de criança leve perante o ídolo, de baixo para cima, de perfil, a dar-lhe ares de deus grego, de paladino da liberdade. Enjoa. Enjoa muito. Segundo, o filme nunca descola. Sobretudo, nunca descola da CBS e do micro círculo de Murrow, do estúdio. Não passa do elevador, a não ser para ir ao bar. Não olha pela janela. É completamente claustrofóbico, e não precisava de ser. Terceiro, Clooney esbanja o preto e branco. Por muito bonito que seja, não se pode filmar a preto e branco apenas porque é bonito. Tem que se lhe esmifrar a sua potencialidade, tem que se ir à procura das suas arestas e limá-las, para o resultado ser algo empático com o espectador. Não é. Ao fim de quinze minutos esqueci-me do preto e branco. E isso não é necessariamente bom. Quarto, os ritmos de Good Night, and Good Luck são marcados por cançonetas de época em voz negra. Se à primeira funciona muito bem, nas outras nem por isso. O resultado é um filme em blocos, que não flui, com partes quase estanques que apenas sublinham um mesmo pano de fundo. Mas nem tudo é mau. A utilização de imagens de arquivo, quer de McCarthy quer de publicidade da época, é muito bem conseguida. É, aliás, apenas assim que o espectador consegue situar o filme num contexto e numa época. O trabalho de Clooney é competente. Mas não mais. E se calhar o pai até merecia mais...