Bebés, para que vos quero?

É verdadeiramente extraordinário que centenas (milhares?) de pessoas protestem contra o encerramento de maternidades de proximidade. Ora, não somos o país da União Europeia com menor taxa de natalidade? Não temos uma taxa de envelhecimento da população galopante? Se os portugueses não querem ter filhos, porque querem que os locais onde não querem ter filhos sejam próximos? Invertendo a situação, se a ordem do governo fosse para encerrar funerárias, as centenas (milhares?) de pessoas viriam para a rua? Não. E é aqui o ponto de toque de tudo isto: a questão não é, de forma alguma, processual ou de resistência à mudança. É simbólica. O nascimento é dos momentos mais emotivos no sub-consciente das pessoas, mesmo as que não desejam ter filhos. A morte é, naturalmente, dos mais negativos. Fechar maternidades provoca uma sinapse específica na cabecinha de cada português, cujo significado, errado, é "o governo é contra a vida, agora não nos deixam nascer". Além, claro, de ideias românticas relativamente à localidade de nascimento, "a nossa terra", que não tem qualquer aplicabilidade e cai por terra quando o adolescente diz não ter qualquer interesse pela "sua terra" e quer emigrar ou migrar com a rapidez possível. Mais uma vez, e desta feita manipulados políticamente por estruturas locais (que a oposição a nível nacional não tem jeito para isso), os portugueses, centenas (milhares?), não conseguem compreender razões de natureza organizacional e partem para a rua em marchas. O facto de uma medida de natureza organizativa num sector específico gerar manifestações é sintomático do Portugal de início de 2006: sem cabeça, à procura de porrada na tasca errada, embriagado apenas com cheiro.