Drawing Restraint 9 (**)

Por falha gravíssima da minha parte, nunca o Animatógrafo viu post mais gordo sobre Cremaster. E devia. Vi três dos cinco filmes que compõem o trabalho mítico de Matthew Barney no King, em cinema, e os restantes dois em casa. É doloroso. E extraordinário. Não, não sou um profundo masoquista à espera de dor para gemer de prazer. Eu explico: Cremaster, tanto na forma como na substância, não é cinema. É performance, é arte, é desenvolvimento estético sobre um dispositivo visual com movimento. Foi criado para ser visto em cinema, mas não tem qualquer relação com o mesmo. Ou antes, tenta romper com o mesmo. A dor de ver Cremaster advém precisamente dos filmes obrigarem a um trabalho constante de desafectação perceptiva. Quando vi Cremaster 3, passei os 182 minutos a relembrar-me, forçadamente, que aquilo não é cinema. Não há história, não se devem procurar personagens definidas, deve-se antes deter no trabalho de construção estética e conceptual de Barney. No fundo, é o mesmo que estar 182 minutos a olhar para um quadro de Jackson Pollock ao mesmo tempo que se circula pela sala. Tudo é construção mental do espectador a partir de uma construção estética de Barney. Por tudo isto (e por muito mais) é que Cremaster é extraordinário e abriu fronteiras novas à arte, quer em termos de forma (raras vezes se serve da imagem-movimento no sentido clássico para se constituir) quer em termos de conteúdo. Em Cremaster, adicionalmente, Barney tinha o bom senso de partir cruamente para um abstracionismo militante, que dava um lugar de excelência ao espectador enquanto criador da sua interpretação, da sua arte. Barney nunca por nunca piscou o olho ao simbolismo. Limitou-se a criar dimensões estéticas, aproveitando ao tutano o dispositivo técnico de expressão eleito, e deixou o resto a quem de direito. Se se quiser, um profundíssimo anti-neo-realista. Por tudo isto, também, é que andava (eu) a salivar por Drawing Restraint 9, o primeiro (em termos cronológicos de criação) filme do novo projecto de Barney. Drawing Restraint, em termos globais, é um projecto artístico de Barney que compreende escultura, cinema, instalação, vídeo e o diabo a quatro. Barney desenvolveu o projecto de 1987 a 2005, e Drawing Restraint 9 é a face visível e mediática. E além disso é um desastre. Ponto 1: Barney perdeu as premissas de Cremaster e deixou-se seduzir por um simbolismo bacoco e idiota, que mistura baleias, petróleo e barcos. O resultado é pouco menos que entediante. O lugar de excepcionalidade que o espectador tinha em Cremaster, como criador do seu próprio objecto artístico a partir de uma definição estética alheia, desapareceu. Barney aposta claramente no cavalo errado, o que é, mais que tudo, triste. Ponto 2: deriva do ponto anterior que esteticamente o filme não tem projecção aceitável. Se em qualquer Cremaster Barney apostou na criação de ambientes cromáticos e de coreografia visual que definiram o próprio filme como objecto artístico, em Drawing Restraint 9 a preocupação simbólica amputa o filme de tudo isso. Ponto 3: a participação de Björk é pouco menos que patética. A senhora, que se perdeu de amores pelo realizador esquizóide, pura e simplesmente não encaixa em nada. O ritmo é desajustado, a conjugação forçada. Parece uma criança a quem deram um rebuçado e o trinca desalmadamente, sem compreender que o doce é para ir derretendo devagar na boca. Acresce a isto, mas aqui a culpa não é dela, que Björk não é compatível com objectos em que se queira uma representação conceptual/abstracta. Porque Björk é concreta. O sorriso é dela e não de uma mulher qualquer num barco. O andar é dela e não de uma mulher qualquer num barco, os olhos são dela e não de uma mulher qualquer num barco. Se Lars Von Trier teve a mestria de aproveitar o que necessitava da islandesa em Dancer in the Dark, criando uma Selma que era Björk na exacta medida em que era necessário, já Barney não separou trabalho de conhaque e meteu a pata na poça. Dos três pontos se infere uma conclusão triste: Drawing Restraint 9 está a milhas de Cremaster, em tudo. Barney parece ter infantilizado e cedido à pressão do simbólico. Fica a curiosidade pelo conjunto de trabalhos que compõem o ciclo por inteiro e um sabor mais que amargo na boca. Pior que não saber fazer as coisas, é ter sabido e desaprender.