[indieLisboa2006]: Shark in the Head (***)

Primeira e mais importante premissa: Shark in the Head é a primeira longa-metragem da checa Maria Procházkóva. E isso vê-se. Não no sentido de ser um filme inconsistente e verde, mas sobretudo o de ser um objecto mais de exploração cinematográfica (sobretudo técnica) do que um trabalho de fôlego. A realizadora elegeu Seman, um esquizofrénico simpático que habita em Praga, como personagem central do filme, e o mesmo nunca descola da cabeça deste. Os dias de Seman são passados à janela do apartamento de rés-do-chão ou na rua, de calções e camisola de alças, com um cigarro ao canto da boca, a meter-se com os transeuntes. Os dias de Shark in the Head, por seu lado, oscilam entre as imagens de Seman a rebuscar o lixo alheio ou composições de animação que reflectem a cabeça do checo, constituindo o filme mais “simpático” da competição. Os 75 minutos de Procházkóva provocam muitos sorrisos, e isso é um dos seus melhores alibis. É um filme de experimentação de caminhos, e muitos deles têm a concretização que merecem, resultam bem, resultam. Seman, enquanto esquizofrénico, emana uma honestidade que apanha qualquer espectador na curva e puxa-o para o seu lado. E, honra lhe seja feita, o filme nunca quer ser mais do que é, nunca se arma ao pingarelho, nunca tenta golpes de asa ao jeito suicída de Ícaro. Mas como um filme simpático não é, por si só, um grande filme, Shark in the Head fica-se pelo patamar que define à partida. Cumpre-se, mas nunca se revela extraordinário. Apresenta-se, mas nunca parte para cima do espectador para lhe dar a dentada fatal. O mesmo é dizer que, para primeira obra, está muito bem, sim senhor, mas no futuro terá mesmo que ser visto como “a primeira obra” de Maria Procházkóva. Não é filme para ganhar prémios, nem coros de elogios, mas tomara muitos terem a respiração que Maria imprime à película. E isso já é de louvar.