Cultura, Saúde

Já tardava a substituição de Isabel Pires de Lima no Ministério da Cultura. Desde cedo, a senhora ministra deu sinais de ser um profundo erro de casting. Aparentemente desconhecedora dos dossiers, partiu para a ignorância ao substituir a directora do Museu de Arte Antiga e o director do Teatro S. Carlos, dois óbvios elementos preponderantes na (parca) dinâmica cultural portuguesa. Em adição, foi totalmente inábil na condução do dossier “Museu Berardo”, deixando “fugir” Mega Ferreira quando finalmente se tinha assumido à frente de um dos maiores pólos culturais nacionais, o CCB, e aceitando que ficassem a pairar enormes suspeitas sobre o negócio com o comendador. Pires de Lima terá sido, de forma clara e transparente, a pior escolha de Sócrates para o elenco governativo, e sabia-se há muito que, à primeira oportunidade, seria exonerada. Sócrates cumpre. Porém, a escolha de um economista sem ligações ao meio cultural português e com íntimas ligações a Joe Berardo deixa muito a desejar. José António Pinto Ribeiro aparece do nada, sem trabalho vísivel mas, e aqui pela positiva, sem anti-corpos. A ligação a Berardo será, claro, fortemente vigiada. E, infelizmente, Sócrates dá um mau sinal com um bom sinal. A substituição, boa per si, implica um novo agente que talvez mais não fará que gerir um orçamento inexistente. A indicação deste Pinto Ribeiro é claramente a defesa da Cultura enquanto sector esvaziado de capacidade de investimento e a fazer contas às migalhas. Há quem diga, aliás, que Sócrates prepara assim este Pinto Ribeiro para outros voos, noutras pastas. Curiosamente, quem passou o dia a receber telefonemas de parabéns, de acordo com o Expresso da semana passada, foi o outro António Pinto Ribeiro, programador da Culturgest, académico reconhecido e personalidade há muito vista como possível ministro da pasta. Esse sim teria sido uma aposta para um futuro mais sorridente de uma área esquecida por sucessivos governos desde o tempo de Manuel Maria Carrilho (honras feitas a Guterres).
Do lado da Saúde, de novo Sócrates a dar o pinote. Dias depois de afirmar total confiança em Correia de Campos, Sócrates admite os problemas e troca-o por Ana Jorge. Se a gestão do dossier “encerramento de urgências” foi desastrosa, dificilmente seria possível ao primeiro-ministro dar pior sinal do que demitir um ministro fortemente pressionado pelos media, populações e oposição. Até porque, acredita-se, na génese, o programa de encerramento de urgências hospitalares de menor eficiência e a sua substituição por centros intermédios está correcta.Falhou, de forma demasiado óbvia, a planificação de encerramento das primeiras e abertura dos segundos. Mas demitir um dos ministros mais visíveis do governo, sobretudo no auge das pressões, indica um Sócrates de olho demasiado virado para eleições e no apaziguamento das facções internas do PS, com Manuel Alegre à cabeça. À partida, o efeito foi conseguido: a entrada de Ana Jorge calou as Anadias, pelo menos num “esperar para ver” que dá oxigénio a quem governa. Mas fica o sinal. Se nalgumas matérias Sócrates mantém a posição forte que imprimiu na primeira metade da legislatura, parecem existir sinais suficientemente preocupantes para seguir os próximos meses com atenção redobrada. Assim não, pá.