A verdade é que

A verdade é que devia estar a trabalhar na área da cultura, e não estou. Devia ser programador, ou técnico de luz, ou assistente de comunicação, ou promotor. Olhando para trás, dir-se-ia que falhei na coragem para assumir que o queria fazer não me daria, objectivamente, o que queria de material na vida. A verdade é que o que faço hoje está longe das minhas inquietações mentais, do que me interessa efectivamente, do que me realiza nas entranhas. Sim, poucos são os que fazem o que querem. E poucos ainda o que os efectiva na realidade que constroem. A verdade é que o quotidiano é hoje uma mentira mascarada de necessidade, e um dia, do alto dos meus 50 ou 60 ou 70 anos, vou desejar acreditar em qualquer força metafísica que me traga de novo ao tempo da oportunidade. A verdade é que o antropocentrismo a que aderi é bonito, mas fode-me o juízo.