Saraband

Não sei precisar a primeira vez que tomei contacto com Ingmar Bergman. Na minha adolescência tive a felicidade de frequentar o cinema do AC Santos da Av. da Igreja, em Alvalade, pouco antes da sua morte. Era uma sala numa cave, com pouco mais de 40 lugares, e que teve a feliz ideia de repor dezenas de filmes "de autor" durante mais de dois anos, numa média de 2 filmes por realizador em dois ou três dias. O plano estava nuns folhetos com a programação durante todo o ciclo. Foi aí que vi "A Última Concubina", uns dos expoentes do cinema chinês de início da década de 90, com perto de quatro horas de duração. Foi aí que vi "Kids", de Larry Clark, e formei a minha opinião sobre o senhor. Foi aí também, estou em crer, que vi "Persona" e "Cenas da Vida Conjugal", de Ingmar Bergman. Mas seria na Cinemateca Portuguesa, na velha sala da Barata Salgueiro, que viria a dar de caras com "O Sétimo Selo", o Bergman que mais me marcou. Ficou célebre, sobretudo, a imagem da Morte a jogar xadrez com o Cavaleiro, numa paisagem rochosa e desabitada a preto e branco. Hoje "O Sétimo Selo" é dos pouquíssimos DVDs que comprei mesmo.

Quando soube que Bergman estava a rodar "Saraband" estava muito longe de o ver. As salas portuguesas são muito pouco dadas a cinema europeu anti-comercial, mesmo quando se trata de um dos maiores realizadores de sempre. Quando soube que Bergman exigia salas com determinadas condições para a sua projecção, fiquei mesmo convencido que só uma sorte dos diabos me levaria a Paris ou Helsinquia na mesma altura em que uma fantástica sala com projecção digital mostraria Johan e Marianne novamente, trinta anos depois. E convencido da mesma forma sobre a senilidade de quem exige o máximo dos máximos para um filme de pessoas, e não para a oitava maravilha técnica. Por isso há que pedir desculpas ao senhor Bergman, primeiro que nada.
A projecção digital de "Saraband", para os não crentes nos prodígios da técnica, é um factor determinante para a percepção da imagem, e apenas por ter consciência disso mesmo Bergman exigiu semelhante façanha. Ontem, na sala 6 dos insuspeitos Millenium Alvaláxia, vi o liquído semi-brilhante que se forma ao canto do olho humano em formato 16:9 com vários metros de largura. Vi a luz tal como embateu no cabelo já fraco de Liv Ullman no dia em que se deixou filmar. Vi as olheiras acumuladas de Erland Josephson, sem maquilhagem. Vi ainda uma linha ténue que percorre a tela da sala, na vertical, como uma costura de fabrico. E não vi nenhum pixel, mesmo quando o ecrã era ocupado pela boca estriada de Liv.Obrigado senhor Bergman, e desculpe o cepticismo
Aprendi com "O Sétimo Selo" que Bergman não faz filmes sobre pessoas, mas sobre personagens. E que não filma pessoas a imitar personagens, filma os próprios personagens. Tudo em "Saraband" é racionalização, cada ínfimo segredo, cada sorriso ébrio, cada olhar despovoado de memórias. Marianne regressa a Johan 30 anos depois, e não há surpresa. Há o sentimento que a ocupou esses 30 anos, como se a boca não fosse a barreira ao pensamento. Tudo em "Saraband" é directo, transparente. E tudo assim plana acima do filme, como se um diálogo mental se passasse. O espectador não tem que pensar "ele disse aquilo a pensar naqueloutro". Isto provoca um estímulo a quem vê. Da mesma forma que ver Cremaster, de Mathew Barney, é doloroso, também "Saraband" não é fácil. Porque o que nos diz é "não me vejas a pressupor coisas, vê-me fora da dimensão humana". O que nos diz é "não somos pessoas, somos personagens". O que nos diz é "não olhes para nós como se fossemos pessoas". E isto faz toda a diferença.