War of the Worlds ****

Ora, parto de um grande handicap: não li o livro de Orson Wells. E portanto não sei onde começa o trabalho de Spielberg e acaba o génio de Wells. Mas vamos partir do princípio que o básico estava todo em Wells e Spielberg o aproveitou como quis. Ora, usualmente, Hollywood faz filmes de sci-fi na modalidade “herói”. Isto é, perante a invasão dos terríveis e verdes marcianos, há uma personagem que se destaca e arranja um plano fenomenal para rachar a cabeça aos olhudos. Inicialmente abre a boca perante a invasão, foge para dentro de um edíficio qualquer e esconde-se, escapando. Depois lá chega à fala com o FBI, CIA e demais agências e diz ao Presidente dos States o seu plano, que, ainda que rebuscado e ao milímetro, vai salvar o planeta. Aliás, este dispositivo resulta com marcianos, meteoritos ou outras pragas que caiam na categoria “ameaça global”. Junta-se umas explosões fantásticas, umas gotas de suor no momento decisivo e obtem-se um filme pastilha elástica, de grande orçamento, para pipoca ver enquanto não salta do balde pra boca. Ora “War of the Worlds” não tem heróis. E essa é talvez a sua maior virtude. Cruise não pensa num plano fantástico para derrotar os “verdinhos”. Limita-se a fugir. Li algumas críticas que acusavam Spielberg de se preocupar mais com a figura de um pai preocupado e com problemas de consciência do que com os marcianos. Mas a questão é mesmo essa. Na fuga sem volta, Cruise só pode preocupar-se com o que qualquer um de nós se preocuparia. As conversas parecem sem sentido porque o absurdo domina. Aliás, essa é outra grande virtude: Cruise não sabe de nada. Sai uma coisa do chão que começa a pulverizar a malta e só sabe que tem que se pirar. Nos filmes “pastilha-elástica”, pelo contrário, toda a gente sabe tudo, quanto o marciano calça, quais as suas cores preferidas, o ponto fraco, porque vieram, o que querem. Em “War of the Worlds” só se sabe que o mais certo é não escapar. E o instinto de sobrevivência faz o resto. Para além disto tudo, há uma Dakota Fanning extraordinária, a ideia de que os marcianos atacam em todo o lado, o pânico geral que gera o caos, a noção de que o homem não é o maior. Só virtudes. Tenho uma teoria que diz que Spielberg faz um filme bom entre dois menos bons (o homem também não sabe fazer filmes maus, no verdadeiro sentido da palavra). Antes deste fez, por ordem, “The Terminal”, “Catch me if you can” e “Minority Report”. Bate certo. Os próximos são “Munich” (sobre o assassinato de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de 1972), um sobre Lincoln e, depois, Indiana Jones 4. Vamos ver.