Harry Potter and the Goblet of Fire (**)

Primeira premissa: não li nenhum dos livros de Harry Potter. Não por achar que não valem a pena, mas porque a minha lista de "compras que nunca farei porque gostava de ter tanta coisa que só se ganhar o Euromilhões vou conseguir comprar tudo" já é tão extensa, que ficava com sérios danos cerebrais de gastasse aéreos em Harry. Desculpa Harry, mas a vida é mesmo assim. Ainda assim, vi todos os filmes. Isto para dizer que não posso analisar a adequação dos filmes aos livros. Para mim, o Harry Potter sempre foi um puto inglês de óculos que aparece uma vez por ano no cinema, mais coisa menos coisa, em alturas do Natal. Aliás, nunca tive curiosidade por maior em ir ler o livro depois de ter visto o filme. Se calhar um dia leio. Mas até hoje não calhou. Segunda premissa: os filmes de Harry Potter, até Goblet of Fire, eram simpáticos. Isto é, enquanto filmes de mercado que aparecem porque há livros que vendem aos milhões, não eram objectos desprovidos de interesse. Tomara todo o cinema de entretenimento ter aquele grau de qualidade. A própria evolução, de um inicial curtinho para cada vez maiores e mais densos, é interessante. Os fans de Harry, o personagem livresco, dir-me-ão se não reside aí parte do sucesso, no facto de conseguir agregar públicos tão díspares, piscando um olho aos putos e outro a gente mais velhinha. Destas duas premissas devia discorrer uma conclusão dentro da mesma linha. Mas não. Como no cinema de entretenimento não existe lógica, vai de fazer um filme mau, só assim para variar. Harry Potter and the Goblet of Fire é um filme muito fraco. Porquê? Porque a construcção é banal, porque os planos são de cadeira de escola, porque os efeitos são fracos, porque não consegue dar um novo impulso ao ambiente criado na história que está para trás, porque não é curtinho e infantil nem extenso e negro, não é carne nem peixe. Porque os actores, que se portavam muito bem nos primeiros dois filmes, principalmente, agora se revelam actores fracos. São agora, aliás, o que sempre foram mas conseguiram mitigar: crianças de casting. Porque o filme tem duas horas e meia e parecem mais de três, de tão esticado que está. Porque é de uma previsibilidade assustadora que, ainda que seja herdada do livro (será?), devia ter sido manipulada para criar uma dinâmica cinematográfica. É, claramente, o pior Harry Potter so far. E a diferença para o anterior Prisoner of Azkaban é tão evidente como entre Alfonso Cuarón e Mike Newell. Cuarón já provou, em meia dúzia de filmes, que é um excelente realizador. Newell, em muitos mais, nunca passou da mediocridade. David Yates, que assinará o próximo Order of the Phoenix, não passa de um desconhecido. Mas como a lógica é uma batata (crua, para não fazer mal ao colesterol), esperemos até 2007.