Brokeback Mountain (****)

Declaração de princípios: eu não gosto lá muito do Ang Lee. Não acho grande piada aos primeiros filmes do senhor, detestei Wo hu cang long (O Tigre e o Dragão), e só com Hulk me pacifiquei um pouco. Juntando isto à aclamação de Brokeback Mountain pelo público e pela crítica, as perspectivas de uma saída com sorriso da sala não eram assim muito alargadas. E porém, surpresa! Antes de mais, creio que Brokeback acaba por provar um pouco uma ideia que já tinha: Ang Lee não tem estilo. Não tem uma marca. Não há um cinema de Lee (há o de Bruce Lee, mas isso é outra coisa). Quanto muito, podemos dizer que Ang Lee gosta de contenção, e isso é bom. Hulk era interessante precisamente pela contenção, pela capacidade de transformar uma história de BD, que usualmente resulta em pastilha elástica visual, em algo dotado de intensidade emocional, sem largar um ambiente visual arrojado. E Brokeback Mountain tem como grande mais valia, precisamente, a contenção (e é aí que ganha a batalha das bilheteiras). Alicerce número um: o argumento. A construcção textual de Brokeback é intocável e potencia um trabalho de realização muito bom. Tudo está onde deve estar. Não há fases maiores ou mais curtas do que o necessário, todos os elementos de argumento têm o seu espaço de respiração sem perder a ligação com uma obra total. Ang Lee pegou nisto e não desperdiçou a possibilidade de fazer um filme belíssimo. É precisamente no aproveitamento muito bom de um argumento excepcional que Brokeback ganha a opinião da crítica. Alicerce número dois: os actores. Não são interpretações históricas, atenção. Mas são interpretações adequadas, que se integram no filme de forma natural, sem se imporem. O filme não se alimenta, qual canibal, dos seus actores (o que costuma dar oscares) mas antes integra-os na medida das suas necessidades. Alicerce número três: a fotografia e banda sonora. A primeira enche o olho ao público e vende bilhetes, a segunda funciona como leve sublinhado de momentos, sem se impor, maximizando assim a sua presença quando surge. Por último, o grande savoir faire de Lee (e neste caso só dele): o de fazer um filme partindo de uma ideia aparentemente original (a da homosexualidade entre dois cowboys) e de o transformar em algo muito maior. Brokeback Mountain é tudo menos um filme sobre homosexualidade. É antes um documento sobre uma América interior que sobrevive décadas agarrada à sua essência, porque não é mais do que aparenta. É sobre a diferença entre a vida que queremos e a que muitas vezes o tempo nos oferece. É sobre a dificuldade de relacionamento que cada um tem ou pode ter consigo mesmo e, logo, com os outros. Lee nunca perde o pé e mantém em todos os momentos uma atitude de contenção, dando ao espectador um lugar de inteligência que raras vezes lhe é atribuído. O resultado é aquele que muitos procuram: agradar a gregos e troianos, fazendo um filme que congrega crítica e públicos, sem piscar o olho a nenhum dos dois em especial. Parece que é possível...