Caché (**)

Caché é um filme profundamente falhado. O que não é o mesmo que dizer que é um mau filme. Vamos por partes: Michael Haneke vive ainda (e talvez sempre) à sombra de La pianiste, filme completo e absoluto. As imagens de Isabelle Huppert de rosto fechado, numa Europa central plena de cinzento e tons de piano, são de tal forma marcantes que os filmes que se sucederam (e sucedem) do realizador têm sobrevivência difícil. Le temps du loup foi um afastamento inteligente por parte de Haneke relativamente ao realismo inalterado e simultaneamente bizarro que povoa o seu cinema. Era sobretudo um exercício abstracto e teórico, brilhante, mas tão distante que não sofria represálias de memórias alheias. Já Caché regressa ao local do crime e parece nunca estar realmente focado. O ambiente é uma Paris contemporânea e confortável, distinta e pouco eclética, e Haneke parte sem dúvidas para a vigilância: Georges e Anne Laurent são alvos de olhar estranho, e é-lhes dada conta disso através de cassetes de vídeo enviadas para casa. E para Haneke, isto parece bastar para construir um dispositivo argumentativo que anda de volta da ideia de observação não objectiva. O problema é que anda de volta mas nunca se focaliza, perdendo-se a meio caminho. É certo, e notório, que o objectivo de Haneke nunca é, em momento algum, filmar uma história de suspense com princípio, meio e fim. Mas da mesma forma que não é fácil filmar o vazio, também é complicado manter a ténue linha do suspense psicológico no seu pico. Caché parece perdido na tentativa de abordar a ideia de olhar estranho de um ponto de vista ausente, sem visibilidade. Desde o primeiro minuto que sabemos que alguém está a olhar. E para que nos desembaraçássemos da curiosidade perceptiva comum que nos assola, Haneke tinha que fazer algo mais, algo que existia em La pianiste e que não existe em Caché. Mesmo quando o realizador tenta "recuperar" o filme com um choque (um suicídio directo), perde o efeito em poucos minutos, voltando à direcção intermitente de quem não sabe o que quer. O resultado é um filme escondido do cinema.