Capote (****)

Há coisas do diabo. Tudo o que li e ouvi sobre Capote enquadra-se no tipo "o gajo é bom, mas o filme não é assim nada de especial". E porém, meus senhores, porém Capote é um filme extraordinário. Primeiro que tudo: dizer que Capote está refém da interpretação de Philip Seymour Hoffman é de tal forma la palissiano que o próprio La Palisse ficava envergonhado. Ora pois, se o filme se chama Capote e é sobre Truman Capote, não podia existir sem o actor que faz de Truman Capote. Boa? Mesmo que não fosse um extraordinário Philip Seymour Hoffman e fosse um gabiru qualquer. Mas Capote, o filme, é muito mais do que Capote, o Hoffman. Colocando as coisas como Marco Bellini, esse especialista ultra-planetário nas coisas do segredo, o dito está tanto na massa como no molho. A massa é fininha, de bom gosto, aromatizada e enformada ao milímetro. Rigorosa, a realização assenta em planos fixos e noções reais de raccord (lembram-se, aquela coisa que existia no cinema?), em sequências de aproximação secas, sem a gordura do movimento de camera constante. Muito dietético, mas com muito gosto. O trabalho de fotografia assenta que nem uma luva, sem estar continuamente à procura "daquela" planície da América profunda que costuma encantar sexagenários europeus. Capote é um trabalho de extremo bom gosto visual, cromático, de um senhor que eu não conheço de lado nenhum, e que não tinha feito quase nada na vida tirando um documentário sobre uma carreira de autocarros em Manhattan, por acaso premiado em Berlim. Nome de cadastro: Bennett Miller. Voltando a Marco Bellini, o molho, oh senhores, o molho é fenomenal. Composição: um Philip Seymour Hoffman que consultou a alma do Zandinga e incorporou Truman Capote. E, oh senhores, não é só a voz. É o leve franzir das narinas quando fuma, é o tique do lado direito da boca, é a gargalhada feita mneumónica de Brooklyn com álcool de Greenwich Village. Hoffman, cuja carreira se tem feito à sombra de papéis menores, agarrou a oportunidade by the balls e construiu um Capote que funciona como ideal pedra de toque. Segundo ingrediente: a construção de um argumento que explora a ideia de literatura no seu tutano. Como é sabido, são poucos, muito poucos, os escritores actuais que têm letras no sangue. Capote era, ele próprio, literatura. Todo o seu trabalho mental corria para uma ideia de história. Capote, o filme, nunca perde essa noção e explora ao limite a imagem de um escritor puro, capaz de influir na realidade de forma a retirar-lhe todo o potencial literário. Apenas isso lhe interessa. Truman não estabele relações afectivas com Perry, o assassino, mas antes com Perry, o personagem. E na medida em que um lhe permite chegar ao outro, Truman condiciona a realidade de forma a ter dela o que quer, o que precisa, o que a página precisa. No fim, não é de Perry, o assassino, que Truman tem pena. É de Perry, o personagem, a entidade que lhe ocupou anos da sua actividade cerebral e que lhe deu um livro histórico. Truman sabe desde cedo que é "este" o livro da sua vida. E da vida de muitos. Truman sabe, desde cedo, que é "este" o livro que vai mudar uma forma de escrever. E, como tal, "este" livro vale tudo. Mas, e aqui a enorme capacidade de Capote, o filme, não é aproveitamento frio o que Truman faz. Truman não se pode furtar a ser Truman. E isso exige-lhe tudo para "este" livro. Truman não premedita o uso. Os homens estão desde o primeiro plano condenados. Capote, o homem, apenas tinha a obrigação de lhes extrair a história que continham. De os cumprir. De os revelar. E isto, oh senhores, isto não é da ordem do real. É da literatura. E do cinema.