A History of Violence (****)

O novo objecto (de culto) de David Cronenberg foi o maior escândalo dos óscares deste ano, pela ausência. Os mais novos têm uma ideia de Cronenberg que vem de Crash e de eXistenz e não de Dead Ringers ou de Spider. Ou seja, Cronenberg, se não me engano muito, é hoje muito mais associado a realidades alternativas do que a filmes palpáveis. O novo A History of Violence recupera um Cronenberg mais realizador e menos criador de mundos, mais atento ao cinema enquanto forma de construção formal do que de atitude criativa de conteúdos. Baseado na graphic novel homónima de John Wagner e Vince Locke, A History of Violence tem como pano de fundo a América rural pacata de Millbrook, Indiana, onde o casal Stall vive com dois filhos, uma casa com jardim e um quotidiano de rotinas e sem sobressaltos. Mas uma tentativa de assalto ao restaurante de Tom (um extraordinário Viggo Mortensen) acaba com dois meliantes na morgue e a comunidade a dar vivas de herói ao pai Stall, que se vê a braços com a cara estampada nas televisões de meia América. A partir daqui não há regresso. Carl Fogarty (um competentíssimo Ed Harris) aparece a dizer que Tom não é Tom. A dúvida toma conta de tudo. Mais do que a dúvida, a violência cresce como um híbrido e toma de assalto todos os planos, todos os movimentos, todos os olhares. Mais do que violência objectiva e motivada, o que vem à tona é uma violência despersonalizada e biológica, quase genética, que não permite a fuga. Tom é Tom e não é, numa espécie de esquizofrenia entre o seu "eu biológico" e o seu "eu social". O sexo deixa o campo dos afectos e regressa a uma fisicalidade primordial. A violência deixa o campo moral da justificação e apropria-se do sangue, como algo inevitável. E tudo num subtexto que passa tanto pela reacção do filho de Tom na escola como pelo olhar e voz de Tom no limite do confronto. O filme nunca rejeita a sua origem em termos de argumento, mas da mesma forma nunca esconde que trabalha para uma ideia libertada de si mesmo, que precisa de ser pensada e racionalizada pelo espectador. A direcção de actores é muito boa, os planos prodigiosos (as cenas de sexo belíssimamente bem filmadas), os ritmos geridos ao cronómetro, os pormenores sublinhados de forma contínua. E Cronenberg chega a tudo isto através do aproveitamento de algo intimamente norte-americano: a ideia de segredo aliada à ruralidade, a de fuga de mãos dadas com o isolamento. A noção de uma América para onde se pode fugir, mas ao mesmo tempo a de uma fisiologia que, mais tarde ou mais cedo, acaba por ser revelar de forma brutal, cumprindo toda a sua potência. Com estreia muito atrasada entre nós, é certamente um dos filmes a ter conta quando se fizerem balanços do ano.