[indieLisboa2006]: Snow (****)

Loeffen é um pobre diabo que trabalha numa plataforma petrolífera, em cu de judas, Canadá de cima. Tem um cão, Blackie, que é muito mais que um cão. A aldeia mais próxima é Zama, em cu de judas, Canadá de cima. Loeffen move-se entre a plataforma petrolífera e Zama, onde vai comprar alguma coisa, tomar o pequeno-almoço ou meter conversa. O caminho entre a plataforma e Zama é uma estrada perdida de floresta, onde não passa vivalma e a neve domina por completo. Durante 75 minutos seguimos Loeffen e Blackie pela sua rotina e pela sua solidão, apanhando o solstício de Inverno, o dia mais pequeno do ano e a noite mais densa de uma vida pasmada em cu de Judas. Snow, do canadiano nascido turco Hakan Sahin, é um filme que destila tanto beleza como solidão. Zama existe mesmo, assim como Loeffen, Blackie e restantes habitantes. Sahin, presente na sessão no cinema Londres, explica que trabalhou dez anos em Zama, e que todos os amadores actores são pessoas reais, com aquela realidade. Porém, o filme está, felizmente, longe de ser um documentário ou ter pretensões a tal. Antes centra-se na experiência humana extrema de viver em cu de judas, com paisagens inóspitas em fundo e uma paranóia crescente (que o próprio Sahin diz ter sentido a partir de certo momento). Profundamente melancólico, Snow explora a vivência de Loeffen e demais personagens num tom quase abstracto, mas tocando a realidade de forma dura. Nunca o sentimento do espectador é de pena, pois que Loeffen, ainda que só até ao tutano, aceita o seu quotidiano como a sua própria natureza lhe indica. Ninguém parece deprimido no sentido clínico, urbano e contemporâneo do termo. Porém, há um fundo de solidão em todos os olhares. Não o mesmo que habita os idosos no interior dos países europeus, que se sentem longe de tudo sem culpa própria, mas antes uma ideia de afastamento escolhido por honras da vida, porque um caminho os levou ali. Zama é um cenário aceite por si mesmo, tal como a plataforma. Loeffen, personagem dúbio que tem tanto de modesto como de complexo, oscila dentro da sua própria realidade ao sabor da neve. Snow tem uns pós de Lynch, um cheiro dos irmãos Coen e um pouco de algo mais, e tem um realizador a crescer, com sensibilidade para a imagem que filma e para o que está para além dela.