Lisboetas (****)

Ora, o único filme que eu tinha visto de Sérgio Tréfaut era Outro País: Memórias, Sonhos, Ilusões... Portugal 1974/1975, que nunca teve estreia em sala, infelizmente. Vi-o na exposição de fotógrafos estrangeiros sobre Portugal patente no CCB em 2005. Numa sala pequena, numa televisão de igual dimensão, o documentário debruçava-se no imediato pós-25 de Abril de forma brilhante. Redescobri agora a mesma visão curiosa e esteta no Lisboetas em exibição (ainda?) no Nimas, documentário aberto sobre o novo fluxo de emigrantes que assola a sociedade portuguesa a alguns anos a esta parte. Primeiro: Tréfaut filma de forma brilhante. Não se rendendo à ideia de um documentário como uma peça fílmica menor, do ponto de vista do estilo, mas tendo noção da necessidade de uma certa crueza como forma de legitimação, o realizador tem a atitude salutar de procurar a estética dentro do plano, ou o plano estético dentro da realidade. Mais do que ser feliz com imagens, Tréfaut procura a felicidade com a lente. Segundo: não há documentário que resulte sem ser feliz com quem encontra. E os novos lisboetas que Tréfaut encontra são de enorme felicidade, nos seus rostos, nas suas dificuldades, nos seus olhares perdidos e um segundo depois encontrados, nos ângulos das faces com o Tejo em fundo, nos silêncios baseados em fricções linguísticas internas quando a mente fala em ucraniano, brasileiro, romeno, moldavo, marroquino, estrangeiro. O resultado é um documento cinematográfico que ao mesmo tempo apresenta e representa uma nova realidade num país específico, mas apela a todos os emigrantes do ponto de vista simbólico. Nunca se esquecendo que é cinema.