Imprensa da felicidade (ou mais uma afirmação da minha intelectualidade)

Chegaram ontem. O carteiro, simpático, deixou os pacotes debaixo do tapete, por não caberem na caixa do correio. Simpático. Felizmente a senhora da limpeza não se interessa por correspondência estrangeira. Não se viam letras manuscritas, nem selos de longe. Eram apenas um pacote amarelo fininho e um branco mais grosso. Durante anos planeei subscrever dezenas de publicações, revistas, livros, jornais, folhetos e panfletos, pasquins. Chegaram ontem, e até tenho medo de folhear, parvo. A primeira, num pacotinho amarelo com letras de máquina, é a Zoetrope All-Story. Conheci a Zoetrope na internet e apaixonei-me sem a ver. Falámos longamente como adolescentes, descobrimos as taras escondidas, contei-lhe os absurdos que vejo. Chegou ontem, uma capa laranja com a imagem gigante de uns lábios carnudos, ou a imagem carnuda de uns lábios gigantes. A primeira frase, a vermelho, avisa

FRANCIS FORD COPPOLA PRESENTS

E todo eu tremo como que a meter o preservativo ao contrário. Abro, e na primeira página a face de Harmony Korine a rezar para a lente, numa sala de Santa Iria da Azóia com sete televisões, um quadro de uma mulher com cabelo apanhado e um gato gordo, uma cama, muitos candeeiros de eras diferentes e um cadeirão com cara de Thatcher. O cheiro da tinta é arejado mas antigo, e a letra tem um ar sério, de gente grande que não brinca às magazines mas pensa na vida.
De um pacote branco, gordo, duas Grantas. A da frente, orgulhosa mas simples, diz que é a edição número 100 e tem textos de Martin Amis, Doris Lessing, Ian McEwan, Harold Pinter, Salman Rushdie, Mario Vargas Llosa. E de mais outros tantos. Na capa revejo o mote

THE MAGAZINE OF NEW WRITING

e enterneço-me com a ideia da revistinha ter lançado putos para a vida má das letras, e eles terem crescido para serem hoje homenzinhos com assombrações em forma de livros, em casas públicas de má fama de nome livrarias. Atrás, sorridente, a edição especial Best of Young American Novelists, letras borbulhosas em tons de laranja e verde a gritar por atenção. Na lista da contra-capa Jonathan Safran Foer incha, mas a explicação fala em seis anos de leituras compulsivas de um júri que analisou os trabalhos de dezenas de crianças literárias, homens feitos durante o dia, breves imberbes à noite das letras. Cheira a Barnes & Nobles do Soho. Cheira a fraldas, com fotografias de gente magricela e de maçã de adão proeminente a saltar páginas fora. Cheira a viagem de finalistas sem bebedeiras efectivas. Daqui a uns anos. O senhor carteiro deixou debaixo do tapete porque nada cabia na caixa do correio. Tudo grande demais. Os carteiros são homens sábios.