[IndieLisboa08] Happy-Go-Lucky (*****)

[Observatório] Oficialmente, a filmografia de Mike Leigh recua a 1971, com um desconhecido Bleak Moments. Mas até 1988 o britânico dedicou-se à televisão. E a memória de algo mais válido só vem em 1993, com Naked. Ok, na prática, Leigh é conhecido por Secrets & Lies, de 1996, o dramalhão realista que voltou a colocar o Reino Unido (e a Europa) em lágrimas abundantes e a desenterrar cadáveres do armário como ninguém. Lembrando: é aquele em que uma mulher negra identifica a mãe como uma senhora branca de classe operária e a partir daí toda a gente na família tem um esqueleto escondido. Remember? Pois. Daí para cá Leigh fez o mal amado Topsy-Turvy, e Vera Drake, projecto com cara de BBC que nunca se assumiu como filme a sério e deixou o inglês a marinar como figura proeminente da sétima arte europeia. E portanto, Leigh tinha dois desafios: por um lado tosquiar a lã de realista dramático que lhe cresceu nas costas, e por outro recuperar a veia de cinema que se escondeu atrás da pele de televisão. Ontem, o Indie mostrou em ante-estreia nacional o resultado deste processo, e dificilmente podia Leigh ter acertado mais na mosca. Happy-Go-Lucky é, dentro das minhas categorias mentais discutíveis, aquilo que gosto de designar por um filme delicioso. A história parece simples: Poppy é uma professora primária de trinta anos, com uma vida desligada de responsabilidades de maior. Mas muito mais que isso, Poppy é a pessoa mais positiva e bem disposta à face da terra. Não, Poppy não é pateta. Nem burra. Poppy é inteligente, linda (em estilo inglês) e tem esta questão: é profundamente feliz e tudo, mas tudo, tem um lado positivo. Tudo é solar. Tudo tem volta, imediata. Happy-Go-Lucky, expressão que se pode traduzir por Um Dia de Cada Vez, é definitivamente uma pedrada no charco na carreira tematicamente soturna de Leigh. E, felizmente mais do que isso, é um filme sólido, equilibrado, que em momento algum cai na patetice ou idiotice, que apresenta personagens, situações e questões de profundidade. A espaços com diálogos quase "altmanianos", e mostrando uma Londres muito Paris, o trabalho do britânico, no fundo, não foge ao padrão de discussão das relações humanas que o ocupa. Mas fá-lo numa vertente contrária à comum. Sally Hawkins, que já havia aparecido em Vera Drake mas é uma cara da televisão, é um bálsamo de interpretação num papel enorme, e de enorme dificuldade (quem consegue ser assim?). E no fim de tudo estamos a falar de uma comédia. Parabéns, senhor Leigh, parabéns. (Vénia).