Das mulheres que cheiram a torradas

A esmagadora maioria das mulheres não tem grande cheiro. As mais "coquetes" mergulham num frasco qualquer logo de manhã e perdem todo e qualquer interesse olfactivo que pudessem ter. As mais "humildes" limitam-se a passar desodorizante e uma gota de qualquer perfume atrás das orelhas, que se perde ainda o elevador não chegou ao rés do chão. Há as que não tomam banho (tal como os homens). E depois há as mulheres-esponja. O que são as mulheres-esponja? Ora, são seres atípicos que assumem cheiros relacionados com o seu próprio quotidiano. Dentro deste raro estrato a casta mais comum são as senhoras da limpeza que, muitas vezes, acabam por se fundir com os produtos que utilizam. É assim que surgem mulheres aromatizadas a Cillit Bang ou a Cif. Mas a casta mais interessante dentro da rara espécie são as mulheres que cheiram a torradas. Excelentes donas de casa, mães esmeradas ou esposas dedicadas que não perdem um pingo de sexualidade, as mulheres que cheiram a torradas são um apetite. Esta semana, num raro momento, entrou uma jovem, com os seus 30 anos, no metro que fazia o meu transporte, e sentou-se ao meu lado. Em instantes um leve odor a manteiga derretida em pão quente tomou conta de dois metros quadrados da composição. De ar fresco, certamente profissional liberal comprometida, sem filhos, o espécimen teria feito torradas para o seu próprio pequeno-almoço e para o do jagunço que atura, e o cheiro da refeição afeiçoou-se à camisa preta escolhida para o dia. Uma mulher que cheira a torradas é um bálsamo. Tem ao mesmo tempo um toque de modernidade, com imagens de revista acabada em Living, e de algo antigo, de pão quente com manteiga pela manhã, de pequenos-almoços em casa de forma descontraída e café de cevada, espigas numa jarra, sol a entrar maroto pela janela que dá para a cozinha. Eu, que lia o jornal, perdi a concentração. Desenganem-se os que pensam que uma mulher que cheira a torradas é sexo abstracto. Não. É sobretudo erotismo. É um pouco como o mito de Bocage, que , reza a história, ia para a porta da churrascaria nas Portas de Santo Antão, ao Coliseu, e almoçava "só com o cheiro".