[indieLisboa2006]: Movimentos Perpétuos (*****)

E ao terceiro dia, o mais sério candidato a Prémio do Público. Nada mais nada menos, senhoras e senhores, é ele, o grande, o sublime, o gajo, o mestre Edgar Pêra. Pois é, impõe-se declaração de interesses: eu considero Edgar Pêra um génio. Cá está. Tudo o que o tipo fez até à data é genial ou perto disso. A Janela - Marialva Mix era soberbo em conteúdo e forma. E este Movimentos Perpétuos, documentário com e sobre Carlos Paredes, tinha condições, à partida, para ser outro pedaço incontornável da história do cinema português. E Pêra não desilude. O ponto de partida (e de chegada) são palavras do próprio Paredes, em concerto, onde explicou como trabalha, o que pensa, como vive, como vê. E Pêra faz, declaradamente, improvisação sobre a música do mestre da guitarra portuguesa. Mantém os elementos básicos de um documentário (entrevista, explicação), mas formata-os com retalhos de imagens, planos de fuga, filtros de cor, criando uma visão da portugalidade que não passa pela transparência das coisas. De uma actualidade desarmante, Movimentos Perpétuos pega nas palavras de Paredes e dá-lhes interpretação visual à data, seja sobre migrantes, seja sobre cidades, seja a vida. O trabalho de Edgar Pêra ascende, assim, ao objectivo que possivelmente detinha à partida: o de estar à altura da melancolia com futuro que se ouve em "Verdes Anos", o de honrar a portugalidade que emanava da guitarra de Paredes. E fá-lo sem nunca se libertar da personagem Carlos Paredes, sem nunca se perder em ideias globais e esquecer a mão que lhes dava música. Enquanto filme, é uma homenagem específica e personalizada ao mestre, mas não enjeita a possibilidade de ser uma visão da portugalidade, a da veiculada pela guitarra. E essa é a melhor homenagem que se pode fazer a Carlos Paredes, a de reflectir de outras formas o indescritível que nos deixou enquanto povo. O Animatógrafo curva-se. (Mais um a não perder quando estrear comercialmente).