IndieLisboa 2008: balanço

Primeiro que tudo, as desculpas: faltam textos relativos a cinco filmes, três dos quais da Competição Internacional.Porém, nenhum merece enorme menção e também nenhum foi premiado, pelo que a sua crítica não é fundamental. Posto isto, o balanço. Globalmente, este foi um bom Indie. Valeu a pena. Foi brilhante? Não. Mas dificilmente existirá uma edição que nos faça rejubilar. Temos a consciência, ainda assim, que o saldo é muito positivo e o Indie já terá chegado à maioridade. Em termos de organização, na qualidade de mero espectador parece-nos que as coisas estão estabilizadas. E isso é muito bom para um festival com apenas cinco anos, que aprende muito em cada edição. As salas foram desta feita diversas, os filmes mais que muitos, e não se deu conta de problemas, atrasos, anulações ou perturbações, para além das que não é possível prever, e mesmo essas estiveram praticamente ausentes. Também no que diz respeito à visibilidade, o Indie cresceu. A imprensa sobretudo, conferiu larga exposição ao evento, seguindo a competição, discutindo a cinematografia dos homenageados, ajudando a uma visão mais madura de um evento cada vez mais profissional. Em termos de programação, foram mais de 200 filmes, para todos os gostos e feitios, para públicos diversos, afirmando o Indie como iniciativa transversal e atenta não só ao que se faz em termos de cinema independente, mas também aos diferentes interlocutores que o mesmo tem. Onde fica um sabor amargo é, estamos em crer, na qualidade dos filmes a competição internacional, nomeadamente de longas. Por constrangimentos óbvios, o Animatógrafo não teve oportunidade de olhar para curtas-metragens, nem para o IndieJúnior, mas depois de toda a Competição vista fica a ideia de, por um lado, inconsistência no grupo de filmes escolhido, e, por outro, falta de qualidade nos mesmos. Inconsistência porque o mesmo grupo apresentou filmes manifestamente maus -Charly, A Zona, Momma's Man - e filmes uns bons furos acima - Pink, El Asaltante, Wonderfull Town. A todos o mesmo denominador comum: a falta de meios gritante, que obriga a inventar trabalhos quase a partir do nada. Outras características partilhadas são sintomáticas, nomeadamente uma veia documental bem vincada (e o facto de vários dos filmes serem documentários ou pseudo-ficções bem o prova) e uma cinematografia despida, crua, preocupada com realidades sociais contemporâneas mas indo de encontro a histórias particulares para as ilustrar. O júri decidiu premiar o filme tailandês Wonderfull Town (ver texto), escolha da qual discordamos, mas compreendemos. A nós (este plural de modéstia é bonito) pareceu-nos que Pink, do grego Alexander Voulgaris, é um filme mais sólido e sobretudo mais completo. Tendo em conta que a temática deste era mais íntima e mental, compreendemos ainda assim que quem oficialmente escolhe tenha optado por um trabalho diferente. No fim, fica-nos a ideia que cinema independente hoje é significado de documentarismo ou visão documental, de dificuldades de comunicação com o espectador, de procura de tom e estrutura, de imagens felizes por vezes mal utilizadas, de boas ideias com concretizações deficientes, de processo de procura, de crueza e amargura, de preocupação de cariz humanista. O Indie está morto, viva o Indie.