Pieter-Dirk Uys

O Animatógrafo tem visto algumas sessões do Queer Lisboa 2008, na última semana. Não se tratando de uma cobertura efectiva como habitual (veremos apenas cinco filmes), ainda assim há coisas que merecem relevo. Uma delas é Pieter-Dirk Uys. Revelado aos nossos olhos esta tarde em Darling, documentário realizado pelo australiano Julian Shaw, Pieter-Dirk é uma personagem fascinante. Na origem de Darling! está precisamente o fascínio inicial de Shaw que aos quinze anos viu um espectáculo do sul-africano e ficou ciente que queria fazer um documentário sobre o seu trabalho junto das crianças. Espantado, Uys disse-lhe que fosse ter com ele à Africa do Sul quando fosse mais velho. Shaw cumpriu, apanhou o avião e andou atrás de Uys numa cumplicidade que se sente a cada frame. Mas para além de um filme muito bom (que inclusivamente passou no Festival de Berlim), o que aqui se quer sublinhar é o próprio artista. Pieter-Dirk Uys é um actor/criador satírico que dedicou a sua carreira aos vírus. Primeiro ao vírus do apartheid, através da criação de Evita Bezuidenhout. Terá sido porventura o primeiro homem a surgir vestido de mulher na televisão nacional, e dos primeiros brancos a condenar o regime que vigorava. Depois do avanço na igualdade racial, Uys têm-se dedicado à consciencialização de crianças para o perigo do HIV/Sida, através de conversas em escolas. Uys conversa com os alunos sobre tudo, começando em si e acabando nas formas de protecção que os pequenos devem ter quando se trata da sua vida. Adicionalmente, Uys terá também sido o primeiro a utilizar a palavra "genocídio" para caracterizar o resultado da actuação do governo de Mbeki nos últimos dez anos. Num país devastado pela doença e com um governo que agrava o problema de forma ostensiva (perante a ignorância ou desinteresse do ocidente?), Pieter-Dirk Uys tenta mostrar formas de sobrevivência à geração que mais precisa delas, e fá-lo através de uma raríssima capacidade de comunicação humana, alicerçada na transparência total e na ligação genuína ao outro. Corrosivo, explosivo e subversivo, o artista sul-africano próximo de Nelson Mandela e Desmond Tutu é uma prova enorme de coragem de humanidade. Darling! é não só um extraordinário murro no estomâgo, como o retrato de um ser humano que convoca uma evidente inveja em quem o conhece. Por não sermos, também, assim. (Mais informações sobre Darling! e Pieter-Dirk Uys em http://www.darlingmovie.com.au)