docLisboa 2005: Rize (****)

NOTA PRÉVIA: O Animatógrafo, como não podia deixar de ser, está presente no docLisboa 2005 como espectador. O festival vai na sua terceira edição, já se sente confortável na Culturgest e cresce a olhos vistos. O programa é vasto e variado, e o tempo curto. Como é mais do que óbvio, o Animatógrafo não vai ver tudo, nem perto. Vai tentar estar numa sessão diária, pelo menos. É uma amostra da totalidade dos documentários que estão a passar, e perfeitamente subjectiva, não foi seguido nenhum critério para além do mero interesse pessoal do autor destas linhas. Assim sendo, esta semana é inteiramente dedicada ao docLisboa 2005. Que já começou no sábado...
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Muito possivelmente, já viu fotografias de David LaChapelle numa revista qualquer. Conhecido como fotógrafo de Hollywood, LaChapelle é presença contínua nas mais conhecidas revistas de moda e cinema norte-americanas e britânicas. Ao que parece, está a acabar ou já acabou o video-clip do primeiro single do novo album de Madonna, a sair até ao fim do ano. E, portanto, o nome era mais do que razão suficiente para ver Rize, mais do que não fosse para ver como é que o homem faz um documentário que não tem nada das luzes e bling-bling de Hollywood. De camera digital na mão, LaChapelle desceu das colinas e seguiu direitinho aos bairros problemáticos de Los Angeles, nomeadamente South Central. E a realidade é que a onda do hip-hop gangsta de 50 Cent e companhia limitada não mora ali. As comunidades negras que dominam a zona por completo, em termos de ocupação urbana e social, dividem-se, no que às suas gerações mais jovens diz respeito, em duas actividades: o crime organizado, em regime de gang, e o clowning e krumping. Mais uma moda? Dragon, de lenço na cabeça e pinturas na cara, jura que não. Basicamente, a história conta-se com um palhaço ex-presidiário, Tommy, festas de aniversário para crianças e a vontade de fugir a uma vida de arma na mão. O resultado é um movimento de dança e expressão que parece querer dominar os holofotes nos próximos tempos. Com uma estrutura musical semelhante ao hip-hop, o krumping é uma forma de dança que se aproxima de forma perigosa dos rituais tribais de Chaka Zulu. A rugir. O nível de "fisicalidade" é extremo, a velocidade dos movimentos quase tecnológica. Nos primórdios do rap, que viria depois a dar origem ao hip-hop, a palavra de ordem era "revolta". A segunda geração das comunidades suburbanas, de natureza maioritariamente negra, sentia-se oprimida e criou um movimento, que viria a descambar no "mainstream" que hoje se regista, para alertar, contestar, protestar contra a natureza das coisas. Como era de esperar, o rap evoluiu para um hip-hop agressivo na rima e na bala, para tomar o que "era de direito" a qualquer preço. O pano de fundo na South Central de hoje é parcialmente semelhante. O krumping é também uma forma de protestar, contestar, alertar. Mas contra os gangs. Qual consciência interna dos bairros, que vai ruminando lentamente, o movimento tomou de assalto "os putos lá do bairro" que não querem acabar como o pai ou o irmão mais velho. Rize é um trabalho visual soberbo de LaChapelle. Ok, é fácil filmar um corpo num movimento quase antes nunca visto nas sociedades contemporâneas, os músculos entram pelos olhos, a face agride-nos. Mas LaChapelle monta todo o documentário respeitando os pressupostos de uma tragédia grega, com os seus altos e baixos, com os seus heróis e vilões. O resultado é ligeiramente tendencioso, mas com todos os ingredientes para deixar o espectador rendido, quer em termos formais, quer no que diz respeito à informação documentada e transmitida, quer relativamente à especificidade de cada "actor". O realizador vai dando voz a cada um dos marcos do bairro como se retratasse uma contenda, em que é necessário ouvir todas as partes. E parece que estão todas do mesmo lado. Mas estando o krumping em mutação diária, quase como que um caminho de ascese individual por via do corpo, cada um tem a sua teoria. Cada um o seu krumping. Rize é um documento poderoso sobre a relação de cada um com o seu corpo e a forma como esse mesmo corpo é um elemento determinante na forma de relacionamento com o meio urbano. Da mesma forma que os guerreiros de Chaka Zulu eram corpo em acção simbólica, os putos de South Central são corpos em acção contra a lei da bala. "É o guetto ballet".

PS: Rize estreia comercialmente em Novembro.