Morte

Calma, calma, não morreu ninguém (se exceptuarmos o Sr. Avelino Coecas e a D. Maria Tomásia que vinham no obituário do DN de ontem). Ora, aqui o vosso amigo vem de uns exames de otorrinolaringologia. No caso, aos ouvidos. Parece que sou um maluco que acha que está a ouvir pior do que seria desejável (apesar do médico dizer que está tudo bem). Ora, no exame em causa, depois dos bips e baps e da rapidez no gatilho, surge uma voz que vai dizendo palavras, as quais o suposto surdo, no caso eu, tem que repetir à simpática senhora de bata branca que vai escrevendo uns rabiscos. A voz pareceu-me de um tipo qualquer da rádio. As palavras são foneticamente pensadas para gerar dúvidas, claro, e ouve-se muito baixo. Ora, começámos: "louça", "murro", "roupa", "tudo", "prato". E eu fui repetindo, "louça", "murro", "roupa", "tudo", "prato", com a voz colocada que o senhor tinha, firme, muito longe, como aquelas chamadas da PT para a Austrália há 20 anos (que inda hoje fazem com que muito boa gente berre em vez de falar quando liga para o estrangeiro, por lapso freudiano, como a minha progenitora). E estávamos nisto, "seio" (sim, é verdade), "monte", "faca", quando


morte


e eu


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e a voz, baixinha, seguiu, "cume", "rua", "sala". Depois no ouvido esquerdo, "fita", "mão", "pêra" e


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e eu


morte


e, caraças, ouvir "morte" assim, muito baixo mas firme, colocado, como se alguém tivesse dito "morte" nas caraíbas e só eu ouvisse, como se fosse um anúncio escondido na gravação, como se a palavra devesse ser "batata" ou "cavalo" e eu ouvisse "morte", caraças, aquilo deixou-me a ouvir melhor!